A queda de um Coelho

O Coelho deitou-se estafado ao final de mais um dia austero. Finalmente podia parar, descansado pela confiança da chegada da época da dormência generalizada.
Ao encostar a cabeça na almofada, no entanto, teve uma sensação vertiginosa intensa. Estaria já a dormir? Faria parte de um sonho no país das maravilhas? Pouco provável. De repente, num piscar de olhos, uma criatura parece materializar-se à sua frente, como se pairasse sobre ele.
– Eu sou o fantasma do passado…” – dizia a entidade, subitamente parecida com um cherne, quando foi interrompido pelo Coelho.
– Do Natal passado?
– Do desgoverno passado.
– Que fazes no meu sonho? – Perguntou o Coelho ainda confuso.
– Há muito que não sei o que é sonhar. Venho para te lembrar do que prometi quando fugi e do quanto falhei em cumprir.
– O que tem uma promessa que ver com cumprir? – A confusão era cada vez maior.
A criatura hesitou, mas não podia parar.
– Enfim. Eu vou falar na mesma, pode ser que ainda percebas.
– Força. Tenho todo o tempo do mundo enquanto espero pela viragem.
– Quando fugi para o Mar Bruxelense, disse que era uma honra para todas as bestas de Portugal ter um peixe a nadar nas melhores águas do Oceano Europeu. Que iria ajudar Portugal como pudesse, mesmo sabendo que era patético um cherne em Bruxelas dizer tal coisa. Olha para mim agora. Ainda te lembras do que prometeste em 2011?
– Não. – O Coelho nunca tinha tido um sonho assim.
A sensação vertiginosa agravou-se de súbito. Continuaria a cair no sonho? A figura que pairava à sua frente mudou.
Agora encontrava-se perante uma besta enorme, de formas mal definidas, que parecia sentado num Banco e agrilhoado a um conjunto de papéis que o pareciam manietar.
– Eu sou o fantasma do presente.
– És amigo do anterior? – Perguntou o Coelho. A sensação de queda estava a piorar. E ver um monstro controlado por papéis voadores não o estava a ajudar a estabilizar.
– Às vezes, quando o Mar de Frankfurt encontra o dele. Mas a minha função aqui é vir avisar-te.
– Também tu? Olha que o aviso do passado passou-me ao lado. E esta vertigem não passa, não me podes ajudar com isto?
O monstro baixou um dos seus tentáculos (seriam tentáculos?) que estava crivado de símbolos de percentagem. A vertigem do Coelho pareceu melhorar ligeiramente, mas continuava em queda. Ainda o tentou ajudar de outra forma, mas os papéis pareciam prendê-lo.
– Os avisos que eu vim fazer… – Outro papel impediu-o de falar.
O Coelho não estava a perceber, aquele monstro não fazia sentido nenhum e ele nunca tinha sido particularmente perspicaz nestas coisas. De repente o peso das algemas aumentou e o monstro afundou-se. Arrastado pelo movimento, o Coelho deu uma pirueta. Quando conseguiu parar de rodar, embora ainda a cair, cada vez mais depressa, algo a apareceria ao longe. Seria uma planta? Uma árvore? Foram-se aproximando, o Coelho e esta figura, e as suas formas iam-se definindo. O tronco era oco. Dos ramos caiam moedas continuamente para o Fundo. As raízes, demasiado activas para uma árvore normal, pareciam subir e atacar os próprios ramos, espremendo-os e moldando-os, secando-lhes as folhas e flores. Uma voz, sabe-se lá vinda de onde, acordou o Coelho do seu estupor.
– Eu sou o fantasma do futuro.
– E voltaste para quê?
– Porque volto sempre. E de cada vez que volto, percebo tudo o que ficou mal feito. Vim avisar-te disso. Quando olhares para trás, vais perceber que o que dizias ajudar não ajuda, que o que dizias melhorar não melhora, que o que forçaste devias ter impedido…
– Mas se sabes isso, porque fazes outra vez o mesmo?
– Porque é o melhor, porque tem que ser, porque não há outra maneira…
– Pois. Não sei se estou a perceber.
– Tens que olhar para o que fazes, tens que perceber o que já falhou, o que falha sempre…
– Mas se não há alternativa, o caminho tem que ser este! – O Coelho já se tinha esquecido que estava a cair, depois de tanto tempo e tantas aparições inesperadas. – E tu depois de toda essa treta ainda tens a lata de querer ensinar alguém?
O Fundo tilintava cada vez mais, de forma que a voz foi apagada pelo barulho à medida que o Coelho, distraído, continuava a cair. Ao seu lado passavam objectos que nem notava, distraído a rir-se destas visitas sem sentido. Só podia mesmo estar a sonhar. Apercebeu-se da escuridão, como se estivesse num túnel. Haveria uma luz ao fundo? Seria a viragem? A sua queda ia acelerando à medida que a sua ilusão da viragem se tornava mais e mais real até que descobriu. Não era um túnel, era um poço. Não era um sonho, era real. Esmagado no chão, o Coelho morreu ainda incrédulo, apercebendo-se que com ele tinha arrastado todo o seu mundo para a catástrofe. Antes fosse um sonho. E, qual tenor, exalou: “sonhos que sonhei, onde estão?”

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