O poder das palavras

Nos dias de hoje, o infindável ciclo de livros lançados espelha uma realidade difícil de escapar: muitos autores já nada têm a dizer de novo e esgotaram os temas nas primeiras obras. Continuam a produzir livros para satisfazer uma longa cadeia corporativa que desvirtuou o livro e a profissão de escritores de uma forma que se poderia descrever como opressora e brutal. O lucro tornou-se o motor principal da indústria editorial. Quando isto acontece numa atividade que sempre se primou por ser artística, os resultados podem ser deprimentes.

A autora norte-americana Ursula K. Le Guin é, felizmente, uma autora rara hoje em dia, na medida em que escapa desse esquema e consegue a proeza de se manter fiel a si própria, coerente com a sua bibliografia do passado e ainda demonstrar uma lucidez e uma sintonia com os tempos muito necessitada nos nossos dias. Filha de um antropólogo, é uma escritora admirada por um conjunto de obras que desenvolveu nas décadas de 60 e 70 do século passado. Muito foi escrito sobre o impacto da sua obra The Dispossessed, an ambiguous utopia publicado em 1974 (Os Despojados, edição da Europa-América em dois volumes) e o protagonista de nome Shevek, um físico que nasceu no planeta Anarres dominado por um sistema político anarquista (mas na verdade um sistema autoritário), e que é ostracizado pela sua própria sociedade por se atrever a estabelecer uma comunicação sem precedentes com o planeta rival, Urras, dominado pelo capitalismo. Pela obra perpassam conceitos complexos de política, ciência, religião, filosofia e ética e, ao longo dos anos, tornou-se um clássico de leitura obrigatória.

Os Despojados insere-se no ciclo Hainish, uma série de livros de ficção científica (curioso que José Sócrates tenha posto o termo recentemente nas manchetes de jornais…) escritos pela autora e que partilham histórias que decorrem num universo alternativo onde relações diplomáticas estão a ser estabelecidas pela primeira vez entre as várias civilizações humanas que habitam as estrelas. Mas também vos poderia falar de outras obras da autora notáveis na fantasia e que marcaram várias gerações com a sua eloquência e absoluto domínio do poder de contar histórias. Le Guin encontrou a sua voz na ficção científica e fantasia e foi nela que construiu a sua reputação. Nunca considerou tal género de livros como uma arte menor, mesmo quando assistiu ao longo dos anos à maioria dos grandes prémios literários ser atribuída aos “realistas”. Recentemente, com 85 anos, a sua voz ergueu-se num discurso memorável ao receber a medalha de Contribuição Notável para as Letras Americanas no National Book Awards para denunciar o poder do capitalismo e o que ela considera um rumo catastrófico dos autores e literatura que foram tomados reféns nas mão de grandes corporações. Ao falar desta situação específica, Le Guin lembrou-nos do poder da palavra para operar mudanças.

Sabem, os livros não são apenas produtos. O desejo de lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos em capitalismo. O seu poder parece ser inescapável. Mas também o parecia o Direito Divino dos Reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e alterado por seres humanos. A resistência e a mudança começam muitas vezes na arte, e muito frequentemente na nossa arte − a arte das palavras.

Le Guin é sábia e perspicaz e suficiente para saber que vêm aí tempos difíceis e que serão necessárias vozes de escritores que podem ver alternativas ao nosso atual modo de vida e que podem ver para além da nossa sociedade tomada pelo medo e as suas tecnologias obsessivas e ver outras formas de ser, e até imaginar algo concreto que dê esperança. Vamos precisar de escritores que se possam lembrar de liberdade. Poetas, visionários − os realistas de uma realidade maior.

O discurso completo pode ser ouvido aqui.
Não acho que venham aí tempos difíceis. Acho que já estamos a vivê-los em pleno. O que vem aí será muito mais assustador, será uma gradual e rápida erosão de tudo o que nos atrevemos a tomar como garantido. A não ser que avancemos para um tempo de mudança. E é importante avançar antes que seja tarde demais.

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