Sair à rua pela democracia

A praça Sintagma em Atenas foi ontem palco de uma manifestação como há muito não se via. Local de excelência para manifestações na capital grega, onde nos últimos anos se deram vários conflitos entre a polícia e manifestantes que se juntavam contra as medidas governamentais, albergou ontem uma manifestação silenciosa a favor do governo. Esta manifestação, à qual compareceram vários milhares de gregos, foi convocada na sequência da decisão do Banco Central Europeu (BCE) de não aceitar dívida pública grega como garantia nos empréstimos aos bancos. A razão de sair à rua era clara na convocatória feita através das redes sociais: “Nenhuma chantagem! Dignidade agora”.

O BCE – órgão sem qualquer controlo democrático ou político – insiste uma vez mais em desempenhar um papel activo na vida política europeia. Assim, não hesita em chantagear o recém-eleito governo grego, tentando desde modo forçá-lo a não continuar com as suas reivindicações em relação ao re-negociamento da dívida grega. Embora tal decisão pareça não afectar os bancos gregos que podem ainda recorrer ao programa de assistência de liquidez de urgência, os efeitos sobre o Euro não se fizeram esperar, tendo a queda do seu valor face ao dólar sido imediata após o anúncio do BCE. Ao sair à rua, os cidadãos gregos mostraram uma vez mais estar à altura do momento e responderam da forma mais democrática possível à demonstração de autocracia e de caminho único dada pelo BCE com esta sua decisão.

Escrevi aqui há três dias que os governos Europeus deveriam estar à altura do momento histórico que atravessamos. Deveria também ter referido os todo-poderosos órgãos com pouco ou nenhum controlo político, como o BCE, que teimam em ser (maus) actores políticos. Esta decisão do BCE, juntamente com a decisão tomada ontem pela Conferência dos Presidentes (dos grupos políticos) do Parlamento Europeu em não autorizar uma comissão de inquérito ao caso “Luxleaks”, prova que os nossos líderes não estão à altura dos acontecimentos. A resposta a estas decisões pode ser apenas uma: mais democracia. Esta democracia deve ser reflectida nas escolhas eleitorais, mas também na rua, que é também um palco privilegiado para a democracia. Como os gregos ontem, também os restantes europeus deverão ocupar as ruas, na defesa de mais e melhor democracia e contra a chantagem.

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