O desastroso sucesso da austeridade

Captura de ecrã 2015-02-26, às 11.04.48

Na história do país, talvez nunca a dívida do Estado tenha aumentado como aumentou ao longo da última legislatura. Pelo menos desde Abril de 1974, não se registava tamanha aceleração do aumento da dívida do Estado. É um facto tão claro como a orientação bem vertical da linha do gráfico acima exposto. Portanto, não basta dizer que a austeridade falhou. A austeridade foi um desastre no exacto propósito como se apresentou aos portugueses: desendividar o país e restabelecer a sua soberania económica.

Mas este desastre para os propósitos nacionais não deixou de ser um sucesso, cheio de propósitos, para quem impôs a austeridade ao país. Se o défice público corrigido – à custa de cortes de ordenados e pensões, e de cortes de despesa social imprescindível à protecção dos cidadãos e ao desenvolvimento do país – alguma coisa garantiu foi sobretudo que o Estado português ostentasse condições para honrar o pagamento de uma dívida magnificada a tal ponto que nem várias gerações de portugueses conseguirão trazer de volta aos valores de duas décadas atrás. Não sem algum cinismo, a pergunta que imagino os credores fazerem é esta: que importância tem o tamanho da dívida portuguesa quando o que importa é que a consigam pagar? “Custe o que custar”, como gosta de dizer o senhor Primeiro-Ministro Passos Coelho.

Como as escolhas económicas são ainda escolhas políticas, governo português e instituições europeias promotoras da austeridade fazem agora, na proximidade de período eleitoral, campanha política pela ideia de que os sacrifícios pedidos às pessoas resultaram. Decerto resultaram, mas não para as pessoas, nem para o país, e sim para este mecanismo fantástico de perpetuação de uma dívida e de uma dívida perpetuamente honrada, cresça ela o que crescer. A austeridade, ilusoriamente vendida aos portugueses com um programa de desendividamento, não consistiu em nada mais do que um programa de garantia de pagamento de dívida mais extensa.

A austeridade falhou para os portugueses porque deixou em muito pior estado o problema de sobreendividamento que devia resolver e porque fez regredir alguns dos mais importantes indicadores das condições sócio-económicas do país. O rendimento médio das famílias caiu 7% desde 2010, registando em 2014 valores idênticos aos de 2006, grosso modo, um recuo de uma década em termos de rendimentos das pessoas. Em 2013, o PIB recuou para valores de 2001, 12 anos atrás. Este ano parece que recupera 0,9%, o que nos deixa ainda com resultados piores dos de uma década atrás. Depressão económica do país, depressão económica das famílias. Não bastasse os rendimentos diminuírem, a segurança da fonte dos mesmos também diminuiu. Um novo código do trabalho em 2012 apostou na precarização dos vínculos laborais, facilitando o despedimento num tempo em que a criação de emprego ficou muito aquém da destruição de empregos. Quem não se resignou ao desemprego, com um aumento muito significativo, emigrou. E a emigração a que Portugal assistiu nos anos 2011, 2012 e 2013 só compara com o ano de 1966. Nem mesmo nos anos 60, com guerra colonial em Angola, Guiné e Moçambique no horizonte de cada homem jovem, se assistiu a uma sequência de três anos seguidos com mais de uma centena de milhar emigrantes por ano. Em 3 anos, mais de um terço de milhão de portugueses emigrou à procura de uma solução económica para as suas vidas que o seu país não conseguiu proporcionar. Se regressarem, o que os espera, e o que espera os filhos que tiverem, é pagar a dívida que a austeridade nos forçou a encaixar e perpetuou. Este é o desastroso sucesso da austeridade.

(Gráfico extraído da Pordata)

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