A banalidade da mentira

Mentir – verbo intransitivo. Significado: dizer o que não é verdade; enganar; não cumprir com o prometido.

As notícias que têm vindo a público nos últimos dias têm sido férteis em mentiras. Não querendo fazer julgamentos infundados ou acusações sem prova, parece-me que se pode considerar que há uma parte que mente quando, para uma mesma história, existem versões opostas. Não me parece também exagerado considerar que alguém que muda a versão da mesma história num espaço de dias está, deliberadamente, a tentar enganar quem o ouve. Se não faltam casos de mentira mais ou menos dissimulada, a reacção da generalidade dos portugueses parece ser apenas uma: a indiferença. Há honrosas excepções, claro, mas não deixo de ficar surpreendido com a falta de exigência democrática por parte dos cidadãos.

Como chegamos a este ponto em que a mentira e a omissão sem consequências se tornaram uma banalidade? Como justificar a indiferença e o conformismo demonstrados pela maioria dos cidadãos? Mais importante ainda, como desenvolver uma consciência mais crítica e mais exigente? Escreve Ferreira Fernandes na sua crónica de ontem que, por não ser sueco, não é dos que aplaude a demissão de uma ministra por não ter pagado a taxa de televisão, referindo-se a um caso ocorrido em 2006, onde a demissão foi justificada pelo facto de tal falha não ser aceitável. Terá esta decisão sido tomada pelo facto de a ministra achar verdadeiramente que o seu acto não era aceitável ou, por outro lado, pelo facto de a sociedade sueca pensar maioritariamente assim? Suponho que tenha sido pelo conjunto destes dois factores, pelo que tenho que discordar de Ferreira Fernandes e dizer que, no que toca à exigência democrática, gostaria que fossemos mais suecos.

A mentira parece pois ter-se banalizado em Portugal. A sua oposição deve ser feita não através de medidas populistas, mas sim por uma maior exigência democrática. Os cidadãos, pelo poder que detêm, devem exigir o máximo de transparência e rigor àqueles que os representam. Os partidos políticos, pelo exemplo, devem também ser um dos pilares de um Estado mais transparente. Esta alteração de paradigma, onde a regra passe a ser a transparência democrática, será, certamente, lenta e desafiante. Não é, no entanto, uma missão impossível. Nem precisaríamos de nos naturalizar suecos.

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