Um novo campo político

Abriu-se um novo campo político na Europa. Um campo político que não é de direita, nem de esquerda, nem sequer de centro. É uma novidade do séc. XXI. É o campo do anti-sistema, do anti-aparelhismo e do combate à corrupção. Naturalmente, todas estas bandeiras fazem parte dos programas e ideologias de muitos outros partidos – e são bandeiras extremamente relevantes para uma agenda política séria do séc. XXI. A novidade deste novo campo político é que tais bandeiras subalternizam toda e qualquer doutrina político-económica ou visão de Estado que os seus partidos e dirigentes possam apresentar. Nenhum dos partidos deste novo campo político se lança no debate público com uma agenda de políticas públicas, propriamente dita. Nenhuma das suas figuras de proa faz furor na esfera pública pela sua visão da escola, da saúde ou da economia de um país. As suas bandeiras são as bandeiras do combate à corrupção, do fim do clientelismo partidário subsidiado por cargos públicos e do combate à promiscuidade entre público e privado, característica de Estados salobros e em auto-destruição (pelo menos no que ao contrato social diz respeito).

Neste novo campo cabem figuras e/ou partidos que vão desde Marinho e Pinto a Paulo Morais, passando pelo Podemos Espanhol e, hipoteticamente, pelo Movimento Cinco Estrelas em Itália. Para todos eles (ou quase todos eles), a divisão entre esquerda e direita já não faz sentido. São partidos e figuras, como os próprios afirmam, pós-ideológicos. São, segundo os mesmos, figuras e partidos pragmáticos, com uma missão clara e civilizadora. Os seus eleitorados são, potencialmente, universais. Não vêm nem da direita nem da esquerda. Vêm do descontentamento, do cansaço e do nojo. Poderíamos fazer aqui um programa de prós e contras sobre este novo campo político, e as suas diferentes – e tão idiossincráticas – emanações. Poderíamos discutir o quão perigoso pode ser esta linha de pensamento, precisamente por ser ideologicamente vazia, pronta a ser preenchida por um qualquer conteúdo, seja ele qual for, sem que isso desmobilize a sua base de apoio popular. Poderíamos também aqui discutir vários dos seus pontos positivos, como um combate sério e honesto à corrupção, à fraude e à evasão fiscal, acompanhado por um aprofundamento dos mecanismos de transparência e controlo cidadão.

Discuto, antes, um outro assunto. E é este o ponto principal deste artigo: o facto de este novo campo político estar a ser propositadamente encostado à esquerda, mesmo quando os seus principais protagonistas avisem que não são de esquerda (Podemos) ou nem sequer venham da esquerda (Paulo Morais foi autarca do PSD). Há uma clara manipulação mediática que se traduz numa muito clara tentativa de fazer resvalar todos estes partidos e figuras para a esquerda do espectro político-partidário. Quem não ouviu dizer que o Podemos é obviamente um partido de esquerda, como o SYRIZA? Quem não ouviu dizer que o Marinho e Pinto é um homem naturalmente da esquerda, da justiça social? Quem não ouviu já dizer que o combate à corrupção de Paulo Morais é um programa de esquerda? Já todos o ouvimos. Às vezes, de forma directa e descarada. Na maior parte delas, contudo, a mensagem passa de forma subtil, quase imperceptível, escondida e codificada em palavrões de jornalismo político que enganam os mais incautos.

Tudo isto tem um propósito. Bastante simples. Fazer crer que a esquerda está ainda mais dividida e fragmentada do que se pensava, ao mesmo tempo que a direita se aguenta sólida, firme e sem perturbações. Encostar este novo campo político, e seus protagonistas, à esquerda é um habilidoso e muito reflectido exercício político. E tem resultado. A esquerda tem a sua quota parte de responsabilidade no processo, pois parece nunca se conseguir entender, mesmo quando as pontes estão já construídas, só faltando caminhá-las. Mas é preciso estar muito atento a esta manipulação e tentar desmontá-la, sob o risco de o eleitorado de esquerda, sobretudo o menos informado, se perder para sempre.

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4 thoughts on “Um novo campo político

  1. Andre,

    Para minha surpresa (também tinha a mesma impressão que tu) no Podemos assumem-se claramente como sendo de esquerda: https://www.youtube.com/watch?v=6-T5ye_z5i0&feature=youtu.be

    Quanto a alguns dos outros (exemplo: Ag!r, PAN) por muito que digam que não são de esquerda, são colocados do lado esquerdo do espectro ideológico com base nas propostas concretas que apresentam (no caso do Ag!r, proteger os serviços públicos, combater as privatizações e a austeridade; no caso do PAN combater os excessos do capitalismo, diminuir o número de horas de trabalho semanais, etc.).
    Há muita gente de esquerda que não sabe que o é, e isso chega mesmo a acontecer ao nível dos partidos. Vê o texto que escrevi sobre o assunto: http://esquerda-republicana.blogspot.pt/2014/12/o-que-e-esquerda-e-direita.html#comment-form

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    1. Obrigado Joao pela chamada de atençao. Nao me tinha apercebido que o Podemos já se tinha declarado de esquerda, entretanto. Seja como for, nao creio que o argumento fique demasiado afectado. Obrigado pelo comentario.

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  2. Pois, a gente sabe, a gente sente que isto é verdade mas também ficámos sem saber o que vai na cabaça de A. Nóvoa quanto a Portugal. Isso a mim é que me interessa. Opiniões jornalísticas e generalidades é o que mais há. O Nóvoa devia ser concreto e claro. Dizer o que pretende fazer, apoiar na mudança de esquema de partidos, o que propõe para alteração na constituição, etc…coisas mais concretas. Generalidades e considerações deste género estão ditas e reditas.

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    1. Obrigado pelo comentário José Maria. Não me parece que um blog deste tipo seja o sítio mais adequado para traçar um programa político e/ou uma reforma do Estado, como o José Maria sugere. Seja como for, aquilo que eu penso em relação a tais matérias é de fácil e rápido acesso: bastará ler o programa das Europeias 2014 do Livre, do qual fui coordenador do Grupo de Trabalho Programa Político, e as novas linhas programáticas do Tempo de Avançar, do qual sou promotor, para perceber o que penso e quero do país. As visões para um Portugal futuro não podem ser nunca individuais. Nascem de muitas vontades, muitos encontros, muitos diálogos. Um abraço

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