(I)migrações

O Mundo é feito de pessoas, em primeira instância, não de “nacionais” ou de “nativos”. Os meus concidadãos são as pessoas que partilham comigo uma nação de valores, independentemente do lugar do mundo em que nasceram. São as que estão solidárias umas com as outras, independentemente do credo que professam ou de não professarem credo nenhum.

São as que se se juntam comigo na crença de que somos muitos a querer mudar as agulhas da linha em que nos colocaram, e de que podemos inverter o curso das políticas de empobrecimento e da austeridade que nos tiram o discernimento e nos povoam de fantasmas que não existem.

São os que fogem à tentação de acusar o vizinho das suas dificuldades só porque tem uma cor diferente, um estatuto social diferente, uma profissão diferente, uma religião diferente, uma forma de vestir diferente.

Os meus concidadãos são os que olham à sua volta e percebem a riqueza e diversidade cultural de que a Europa, e Portugal, foram dotados ao longo dos séculos, uma diversidade impossível de alcançar sem os milhões de imigrantes de todos os cantos do mundo que vieram para cá viver. Imigrantes que, na esmagadora maioria, os governos tratam mal, a comunicação social trata mal e alguns europeus tratam mal, embora eles sejam uma mais-valia inegável.

Trabalham muitas e muitas vezes em condições infra-humanas. São vítimas de empresas abusadoras que não lhes fazem contratos de trabalho e os mantém reféns de um mísero vencimento. Vivem em “guetos”. Os seus filhos nascem em guetos e são “guetizados” nas escolas.

E são imigrantes, e vão ser sempre. Mesmo que, depois de muito esforço burocrático, já sejam cidadãos europeus.

Mas ainda faltam os outros, os que já nasceram na Europa, bem como os seus pais, mas que ainda são ilegais e por isso sem plenos direitos de cidadania, sendo que Portugal continua a ser um triste exemplo onde se observa isso. É um ciclo vicioso e viciado de falta de oportunidades que os espolia de direitos fundamentais Embora para muitos que leio e oiço tenham o que é “possível”, porque não são dos “nossos”.

Nascem, crescem, casam, têm filhos onde sonharam ser felizes, mas esse sonho é-lhes negado e ainda lhes são atribuídas culpas que não têm.

As pessoas não se usam de acordo com interesses “nacionais” ou corporativos. Um país, um Estado, não é uma empresa que “contrata” e “despede” conforme a onda financeira e económica. Um país, um Estado, uma união de Estados de direito, só cumpre o seu desígnio se for um espaço de acolhimento, de partilha e de bem-estar. Não se recebem imigrantes porque estamos ricos ou são ricos e se expulsam ou se fecha a porta porque estamos pobres ou são pobres. Recebem-se pessoas (deixemos a palavra imigrantes) e concede-se-lhes apenas direitos e deveres, iguais para todos. Às vezes corre bem. Às vezes corre mal. Nada mais humano e universal. Nada mais simples.

Texto de Ofélia Janeiro

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