Recuperar da queda

Não há maneira simpática de o dizer: o governo grego saiu derrotado em toda a linha nas negociações do passado fim-de-semana. Após várias horas de indecisão, onde algumas propostas mais ou menos estapafúrdias foram sendo vazadas, foi já quase na manhã do dia 13 que a decisão foi comunicada. Havia um acordo e a Grécia teria um terceiro “resgate”, no valor de 85 mil milhões de euros. Após a vitória em Janeiro com um programa anti-austeridade, após um referendo em que uma clara maioria dos gregos votou contra a anterior proposta de resgate e após mais algumas exigências, como não ter o FMI envolvido, Alexis Tsipras assinou um acordo que representa o oposto daquilo que defendia e, estou certo, continua a defender. Apesar de a maioria dos gregos querer ver este novo acordo aprovado no seu parlamento, o que acabou por acontecer durante a madrugada de hoje, o documento final, onde a possibilidade de reestruturação da dívida grega – já apontada pelo FMI como uma necessidade – é referida apenas como hipotética, é uma clara derrota para Tsipras.

O texto final e as condições exigidas ao governo grego são brutais. Pior, o modo como a negociação – se é que assim lhe podemos chamar – decorreu, teve como objectivo humilhar Tsipras e o seu governo. Não bastava derrotar quem se tinha atrevido a desafiar a política de caminho único, era preciso vergá-lo e humilhá-lo. Peter Kažimír, ministro das finanças eslovaco, num tuíte entretanto apagado, foi quem mais explicitamente mostrou essa vontade: “o acordo conseguido é duro para Atenas pois é o resultado da sua primavera grega”. Entre aceitar um acordo com o qual não concorda ou aceitar a falência do país, entrando em terreno desconhecido, Alexis Tsipras optou pela primeira opção. Onde muitos vêm uma capitulação, não consigo deixar de ver uma certa coragem. Aliás, numa entrevista dada à televisão pública grega após a assinatura do acordo, Tsipras assume a derrota na sua tentativa de mudar a Europa, mas afirma esperar que essa derrota não reduza a vontade daqueles que continuam a querer mudar o rumo da Europa.

É difícil, no meio do desastre, encontrar aspectos positivos. O modo como este acordo foi conseguido mostrou até onde alguns governos, entre os quais o português, estão dispostos a ir no combate àqueles que se opõem à austeridade de caminho único. Mostrou também que o governo alemão, pese embora a história do seu país, não vê inconvenientes em humilhar o governo grego e, por arrasto, todo o seu povo. Houve, no entanto, uma mensagem saída do Conselho Europeu e que tem passado despercebida. Finalmente França parece querer assumir o seu papel dentro da UE, apresentando-se como alternativa ao modelo alemão. Após ter ajudado o governo grego na redacção de propostas que apresentou às instituições internacionais, François Hollande, o presidente francês, teve um papel preponderante na defesa de uma zona euro da qual a Grécia faça parte. Numa entrevista dada a 14 de Julho, Hollande afirma ser necessário um orçamento, bem como um parlamento comum à zona euro. O seu primeiro-ministro disse também hoje ser necessário um “verdadeiro governo económico da zona euro”.

A demissão de Tsipras seria uma vitória para Merkel e Schauble. O abandono da Grécia da zona euro, abertamente defendido pelo ministro das finanças alemão, também o seria. Assim, aceitar a contragosto um acordo com o qual não concorda, mantendo-se no cargo e mantendo a Grécia no Euro, assumindo a vontade em continuar a lutar pela mudança do funcionamento europeu, pode apenas ser visto como um acto de coragem e de resistência. As primeiras brechas na hegemonia alemã começam a aparecer. À oposição mais ou menos firme apresentada pela Grécia, França, Itália e Chipre, podem juntar-se até ao final do ano Portugal e Espanha. O modelo actual, não está, é certo, a funcionar. Compreende-se portanto o desânimo de uma parte da esquerda em relação ao euro e até em relação ao projecto europeu. Se se quer discutir a saída do euro, que se faça, mas que sejam tidas em conta todas as consequências associadas. Continuo, talvez mais que nunca, confiante que o caminho passa por reformular a Europa a partir do seu interior. Alexis Tsipras já assumiu essa luta. Compete-nos agora a nós eleger um governo que o possa auxiliar.

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