Notas de uma passagem pela Grécia

Regressei ontem de alguns dias na Grécia, uma das principais portas de entrada de refugiados na Europa. Em Atenas, a sua presença é facilmente notada, especialmente nas estações ferroviárias. Homens, mulheres e crianças, com um ou outro saco – na grande maioria dos casos com pouco mais que uma mochila – vão esperando não se sabe bem o quê: um próximo comboio, a próxima refeição, um pouco mais de sorte. Sob um sol abrasador – na última semana a temperatura ultrapassou os 35ºC todos os dias – os adultos estão sentados em qualquer sombra, olhar perdido no vazio ou fixo nas crianças que, apesar de tudo, vão brincando.

No comboio que apanhei para Norte, não exagero se disser que metade dos passageiros eram refugiados. A comunicação nem sempre é fácil pois muitos não falam inglês nem francês. Sentado à minha frente está um homem sírio, com 35-40 anos, que no seu inglês rudimentar diz “Hungary no no”, abrindo um sorriso quando diz o nome de Angela Merkel, fazendo um sinal de aprovação com o seu polegar. Atrás de mim oiço um jovem, com um inglês fluente, a dizer que tem 26 anos e é professor de educação física. Também ele saiu da Síria, deixando a mulher, pelo menos até encontrar um porto seguro. Enquanto esperávamos pelo comboio, uma senhora de meia-idade, que viajava com os filhos, diz-me também que vêm da “Suria” (Síria, em árabe) e que gostaria de chegar a França ou à Alemanha.

Em Salónica a presença de refugiados é menos visível. Encontrei um grupo de apoio local onde me explicaram que a maioria dos refugiados que passa pela cidade sai assim que pode, nos primeiros comboios ou autocarros da manhã. Encontrei dois voluntários alemães que todas as madrugadas vão distribuir o material essencial: produtos de higiene, alguma comida, água e, quando podem, sumos para as crianças. Ambos são estudantes que devendo fazer um estágio curricular de dois meses, optaram por ir para a Grécia, apoiar uma ONG local. Vão muitas vezes a Eidomeni, localidade que faz fronteira com a Macedónia e onde passam cerca de oito mil pessoas todos os dias, a maioria sírios e afegãos. Contam-me histórias de aproveitamento por parte de alguns locais: taxistas que cobram preços muito acima dos normais, comerciantes que vendem água ao triplo do preço máximo (na Grécia existe um tecto no preço da água) e confessam não entender como tal é possível. Dizem que por serem constantemente vítimas destes esquemas, muitos dos refugiados têm até medo de aceitar a comida que lhes dão.

Quantas histórias terão para contar cada uma destas pessoas? Como foi possível chegarmos a este ponto? Lendo os comentários odiosos e xenófobos – não raras vezes apoiados por vídeos falsos – que pululam nas redes sociais poderia pensar-se que a Europa desistiu da sua civilização. No entanto, as imagens que nos chegam da Alemanha, onde os refugiados são recebidos como heróis e o exemplo das ONGs como aquela que encontrei em Salónica, enchem-me de esperança. Talvez os europeus ainda estejam a tempo de salvar a Europa.

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