Esquerda e Ecologia (2)

Se é verdade que houve, no passado, grandes lutas que uniram toda a esquerda, não é menos verdade que têm faltado grandes causas comuns nas últimas décadas. Causas como o direito à greve ou a jornada de trabalho de 8 horas não encontram paralelo no passado recente nem no presente. A esta falta de causas comuns, associou-se a deslocação do centro político para a direita, num fenómeno que se verifica desde os anos 80 do século XX e que teve na chamada terceira via do socialismo um dos seus pontos altos. O que antes era uma ideia claramente de direita passou a ser considerada uma ideia “de centro”. Conceitos básicos de um Estado moderno e progressista como a defesa da escola pública de qualidade, o acesso gratuito aos cuidados de saúde e restantes vertentes do Estado social passaram a ser vistos como perigosos e radicais. Os principais beneficiários deste deslocamento são aqueles que mais beneficiam da diluição dos conceitos ideológicos e que não se cansam de repetir que as definições de esquerda e direita deixaram de fazer sentido: os defensores da política do “não há alternativa”.

É portanto urgente recuperar o conceito de esquerda e encontrar uma luta que lhe possa ser comum, motivadora e agregadora. Este objectivo revelar-se-á certamente um grande desafio, num mundo que evolui a um ritmo muito elevado e o qual tanto os partidos políticos como os próprios Estados têm dificuldade em acompanhar. O constante evoluir das tecnologias e o aumento progressivo e acelerado da automação, para além de resultarem numa perda líquida de postos de trabalho, com especial incidência sobre os que requerem trabalhadores menos qualificados, tem resultado também na criação de empresas com lucros milionários e com um número reduzido de funcionários. Silicon Valley tornou-se quase num para-Estado do liberalismo, onde um punhado de pessoas, fanáticas pela tecnologia e pela não intervenção estatal, detém um poder imenso, capaz de fazer frente a qualquer país.

Não adianta a simples oposição a esta evolução pois seria um exercício infrutífero, equivalente a combater a própria tecnologia. Os Estados não podem, no entanto, permitir a “uberização” do trabalho que corresponde a uma liberalização extrema e descontrolada. Os avanços tecnológicos estão sempre dois passos à frente da regulamentação e com a generalização do acesso à rede e da utilização de telefones inteligentes, muitos sectores foram e continuarão a ser afectados. Aqueles que não se souberem adaptar, arriscam-se a desaparecer. Não é tarefa fácil para os reguladores estatais o acompanhamento desta evolução: a velocidade e facilidade com que um novo serviço pode revolucionar todo um sector são assustadoras e os impactos em toda a sociedade são, muitas vezes, incontroláveis. Entre o seguidismo da tecnologia pela tecnologia e o reaccionarismo à evolução há – tem que haver – um espaço a ocupar. Os Estados, tão fragilizados e desacreditados, não podem perder o controlo no meio desta evolução e devem assumir o seu papel de regulador, contendo da melhor forma possível as ondas de choque. Caso contrário, arriscam-se a ser levados pela maré.

Tal como os Estados, também as forças de esquerda terão que se adaptar a esta nova realidade. Contrariamente ao que acontecia num passado mais ou menos distante, os novos desafios são sobretudo de carácter internacional. A globalização tecnológica veio associar-se à globalização financeira e à globalização dos mercados, trazendo novos desafios e alterando a própria relação entre cidadãos, Estados e sector privado. A esquerda deve saber recuperar o seu carácter internacionalista e é nessa escala que deve conseguir encontrar a sua nova luta comum. A defesa da ecologia, como temática de alcance local, nacional e global, pode assim assumir-se como causa unificadora e agregadora. A definição do futuro que queremos faz-se hoje e perante os desafios que se nos apresentam, urge responder com clareza e assertividade.

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