Esquerda e Ecologia (3)

Repensar a escala de produção e de consumo é, nos dias de hoje, uma obrigatoriedade. Neste capítulo, as cooperativas devem assumir um papel destacado. Em Portugal, onde a legislação contempla 12 ramos cooperativos, tem-se conseguido, embora muito lentamente, combater a ideia de que as cooperativas são algo do passado e intrinsecamente ligadas ao sector agrícola. Sendo verdade que estas são ainda as mais frequentes, existem vários exemplos de sucesso de cooperativas com outros fins, nomeadamente na área da educação. Recentemente, seguindo o que já se fazia noutros países, surgiu a primeira cooperativa de produção e venda de energia renovável, permitindo assim que o cooperante invista na instalação de painéis solares e, ao mesmo tempo, possa comprar energia produzida a partir de fontes renováveis. Um sector ainda pouco explorado em Portugal é o da banca cooperativa que, se aliado ao carácter ético, poderia contribuir para combater o oligopólio dos grandes grupos bancários.

O potencial das cooperativas – formalizadas ou não – é enorme. Não são raros os grupos de compra colectivos que trabalham directamente com os produtores agrícolas, encarregando-se também da distribuição, evitando assim um actor intermédio. As vantagens destes grupos de compras solidárias, em francês, GASAP (groups d’achat solidaires de l’agriculture paysanne), são várias. Em primeiro lugar, há um compromisso de médio/longo prazo com os produtores, de modo a que os produtos sejam vendidos a um preço justo e assegurando a sua compra. Esta é uma vantagem inegável, tendo em conta a pressão a que os pequenos produtores estão sujeitos por parte das grandes superfícies comerciais que, por vezes, os faz vender quase sem obter lucro. A segunda vantagem é que este sistema aposta nos circuitos curtos, evitando assim a importação de produtos e, ao mesmo tempo, incentivando a produção local e de pequena escala.

Em paralelo com estas cooperativas que fazem directamente a ligação entre o produtor e o consumidor, existem também, se bem que mais raras, cooperativas que fazem essa mesma ponte através da criação e gestão de supermercados. O princípio é relativamente simples: forma-se a cooperativa que fica responsável pela compra/arrendamento de um espaço; estabelecem-se acordos com produtores locais, eles próprios cooperantes; todos os cooperantes devem trabalhar de forma voluntária um determinado número de horas; o supermercado é acessível apenas a cooperantes. Deste modo, eliminando um agente intermediário e partilhando o trabalho pelos cooperantes, conseguem-se produtos a preços competitivos, maioritariamente de origem local e pagando o preço justo ao produtor. É inegável que a tecnologia desempenhou um papel importante no crescimento destas novas cooperativas. Numa fase inicial facilitou o contacto entre pessoas com as mesmas ideias e visão e, quando constituídas, potenciou o seu funcionamento eficaz.

Esta forma de interacção cooperativa e colaborativa pode levar à perda de alguns postos de trabalho. Basta pensar no exemplo do supermercado, onde deixam de ser necessários funcionários nas caixas ou repositores de stock. O desejado aumento destas cooperativas e as consequências que tal pode representar ao nível do emprego deve servir como mais um incentivo à reflexão sobre o próprio conceito de trabalho. É expectável que a automação continue a aumentar e que, muito em breve, profissões que hoje vemos como indispensáveis deixem de existir. Um exemplo de tal possibilidade são os motoristas que, com a ascensão dos veículos automáticos, deixarão de ser necessários.

É portanto antagónico que se aumentem as horas e anos de serviço quando a necessidade total de horas de trabalho humano diminui. As consequências são taxas de desemprego elevadas com todos os custos económicos e sociais associados. Repensar o conceito de trabalho é deixar de o associar à sua contribuição para o PIB. Quando tal acontecer, será mais fácil que os cidadãos se dediquem a outras actividades, lúdicas ou não. A partilha do trabalho disponível é fundamental, de modo a que haja um equilíbrio na sociedade e que o direito ao trabalho seja efectivamente concretizado.

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