Viremo-nos para a política

Na sua coluna de opinião no DN, ironicamente chamada “Sem emenda”, António Barreto escrevia no passado dia 25 que “o PS se dissolveria nos seus aliados de hoje” e que, “com as mãos a arder, vai virar-se para a política e deixar a economia.” A opinião de Barreto e os seus desejos para um futuro governo são lícitos e, como qualquer outra posição que respeite as regras democráticas, válidos. Não deixa no entanto de ser surpreendente o facto de um sociólogo fazer a apologia da economia sobre a política. Por mais paradoxal que possa parecer, é precisamente a falta de política que tem arrastado Portugal e a UE para o fundo em que se encontram.

Os assuntos económico-financeiros têm, como não poderia deixar de ser, um papel destacado na governação de um país. É portanto normal que as políticas económicas sejam exaustivamente debatidas pelos partidos políticos, de modo a que saibamos o que farão caso cheguem ao poder. No entanto, o que se tem verificado nos últimos anos em Portugal e um pouco por todo o Mundo é a sacralização da economia e sobretudo de especialistas em economia, desde economistas, professores ou jornalistas especializados. Apesar de ser uma ciência social e, como tal, imprevisível e dependente de uma série de factores incontroláveis, a economia conseguiu atingir um patamar especial em que as análises de economistas – constantemente contrariadas pela realidade – são assumidas como certezas, bloqueando deste modo qualquer discussão e permitindo a insistência dos discursos do “não há alternativa”.

Sejamos claros: a economia faz parte da política e, como tal, está sujeita à influência ideológica. Como ciência, está, é certo, sujeita a regras de análise mas é um erro olhar-se para uma análise económica como estando desligada da sociedade e até do próprio cientista responsável pela análise. O que se tem verificado é a hegemonia do pensamento neoliberal que, através do domínio da academia e da forte presença nos meios de comunicação social, faz prevalecer as suas ideias e propostas. Os economistas que ousam quebrar esta ortodoxia são muitas vezes pura e simplesmente afastados, seja de posições relevantes nas universidades, seja das televisões e dos jornais. Este domínio ideológico, associado à ideia que a economia é uma ciência quase exacta e não sujeita a pressões, tem um papel preponderante no convencimento da opinião pública, facilitando assim a implementação de políticas com as quais a maioria dos cidadãos poderia, noutras circunstâncias, não concordar.

A defesa do neoliberalismo não é feita apenas pelos economistas. Os principais líderes europeus – a grande maioria sem formação em economia – aproveitam e até promovem a mensagem da imparcialidade dos economistas, obtendo deste modo um argumento na defesa das suas próprias medidas, quase como se para fazer política fosse preciso ser-se anti-político. Portugal tem em Cavaco Silva o exemplo máximo desta forma de acção: ex-Primeiro-Ministro e Presidente da República, sempre se recusou a ser considerado um político, apesar da sua agenda claramente ideológica. Nunca é tarde para inverter o rumo. Contrariamente à opinião de Barreto, não me parece que a economia por si só possa dar as respostas que procuramos. Viremo-nos pois para a política.

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