Não ceder ao medo (nem ao “securitarismo”)

A atualidade internacional continua a ser marcada pelos ataques terroristas que no passado dia 13 de novembro mataram 130 pessoas em Paris. Misturando terrorismo, medo, religião, refugiados e política, os dez dias passados após os ataques têm revelado posições extremadas, muitas delas sem nexo e algumas até vindas da esquerda, numa tentativa de utilizar o medo gerado junto dos cidadãos com fins políticos. Seja na Europa, onde o inenarrável primeiro-ministro húngaro afirmou que todos os terroristas são emigrantes, seja nos Estados Unidos, onde o candidato às primárias pelos Republicanos e conhecido pelas suas posições polémicas Donald Trump defende a tortura e o recenseamento de todos os muçulmanos no país, não têm faltado exemplos desses exageros.

O momento é delicado e a luta contra o terrorismo não será ganha de um dia para o outro. Não será tampouco ganha se o medo do terror for substituído pelo medo de um Estado autoritário e securitário. É preciso que, na difícil relação entre segurança e liberdade, se consiga encontrar o ponto certo de equilíbrio e é portanto essencial que os atores políticos saibam manter o sangue frio. Se é, em certa medida, compreensível que a maioria dos cidadãos franceses apoiem a extensão das medidas de segurança em França, torna-se mais complicado explicar o facto de apenas seis deputados da Assembleia Nacional francesa terem votado contra a prolongação por três meses do estado de urgência, naquilo a que Noël Mamère chama de “recuo histórico da esquerda”. As propostas de François Hollande para facilitar a retirada da nacionalidade francesa a cidadãos bi-nacionais parecem não ter causado grande choque no seu partido. A poucas semanas das eleições regionais no país, o presidente francês parece tentar não perder votos para a Frente Nacional de Marine Le Pen que, por sua vez, não tem qualquer problema em afirmar que estas são apenas “medidazinhas”, apelando ao encerramento de fronteiras, pese embora todos os terroristas identificados até ao momento serem europeus.

Na Bélgica, país que tem, per capita, o maior número de cidadãos a lutar nas fileiras do daesh, a segurança é quase tema único. Há três dias que a região de Bruxelas se encontra no nível máximo de alerta, o que implica o encerramento do metro e um reforço dos militares nas ruas – de notar que desde os ataques ao Charlie Hebdo os militares já estavam em alguns pontos sensíveis da cidade – bem como o encerramento de escolas, cinemas e salas de concertos. Jan Jambon, vice-Primeiro-Ministro do país que é famoso por várias declarações polémicas, como por exemplo desculpando os colaboracionistas durante a ocupação nazi, afirmou que seria pessoalmente responsável pela limpeza de Molenbeek (comuna de onde saíram alguns dos terroristas) e que gostaria de ver todas as casas daquela comunidade a ser controladas.

Não podemos ceder ao medo. Nós, cidadãos da liberdade e da democracia, temos a obrigação de não ceder àqueles que nos querem obrigar a ter medo de viver. E somos também nós, cidadãos cosmopolitas de uma Europa sem fronteiras que se tem vindo a construir, que não podemos ceder ao Estado securitário. É uma luta desigual mas é preciso que os que acreditam na segurança tanto como na liberdade se façam ouvir. Às pulsões extremistas, constantemente alimentadas por uma comunicação social sedenta de violência, temos que responder com calma e ponderação. Sem um debate sério e moderado sobre a segurança que necessitamos e sobre como combater efetivamente o terrorismo, seremos certamente consumidos pelo medo irracional.

39. LOTFree
Ilustração de Eduardo Viana
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