Que jornalismo?

Uma das notícias que marca esta semana é o despedimento de dois terços dos trabalhadores dos jornais “Sol” e “i”, consequência da decisão do grupo “Newshold” de deixar de investir como accionista dos jornais. Com a ameaça constante do desemprego e a precarização do seu trabalho, não são apenas os jornalistas que são vítimas, é o próprio jornalismo isento, plural e de qualidade que está em risco. No topo da lista dos jornalistas mais ameaçados aparecem, muito provavelmente, os que trabalham na imprensa escrita “tradicional” – jornais e revistas. À diminuição das receitas com publicidade e redução dos lucros com as vendas de jornais, respondeu-se com a precarização e a compra de vários títulos e de vários formatos por grandes grupos financeiros. Torna-se portanto premente pensar num modelo de jornalismo para os dias de hoje, o mais plural possível e que proteja os jornalistas, dando-lhes as condições necessárias para a execução correcta da sua profissão.

A falta de pluralidade na comunicação social portuguesa não será uma surpresa para ninguém. Aos vários títulos já existentes, situados entre a imparcialidade e uma posição mais conservadora, juntou-se há não muito tempo o “Observador”, jornal em linha e abertamente de direita. Não foi portanto de admirar a cobertura enviesada dada às eleições legislativas do passado dia 4 de Outubro. Há, felizmente, excepções, como o mensal “Le Monde Diplomatique” que, na sua versão original, não se tem cansando de denunciar o impacto que a posse de vários jornais – incluindo alguns carismáticos de esquerda como o “Libération” – por parte de grandes grupos económicos tem na discussão e apresentação de ideias plurais. O editorial da edição do “Diplo” do passado mês de Outubro terminava dizendo que “num clima ideológico tão pesado como o actual, um jornal independente não é demais. (…) Encoraja as resistências, quando tantos outros se dedicam a esmagá-las.

É precisamente a falta de independência – e a falta de controlo por parte dos órgãos reguladores, diga-se – que permite que se tenha chegado a um ponto tão baixo do jornalismo. A pressão sobre os trabalhadores é imensa e a capacidade de resposta, limitada. Caso contrário, como entender a publicação do vídeo da sessão de despedimento dos trabalhadores do “Sol” e do “i”, numa demonstração de abuso e desprezo por parte do administrador, ele próprio jornalista.

Os desafios que se colocam ao jornalismo e aos jornalistas estão longe de ser um exclusivo português. Estive ontem numa sessão de apresentação de uma nova revista trimestral belga, de investigação e pesquisa jornalística e quando questionados sobre o porquê de terem avançado para a criação de uma revista e de o terem feito através de uma cooperativa, a resposta foi simples e clara: somos jornalistas e grafistas e estávamos fartos de ser explorados e não ter independência. Assim, as peças publicadas na revista são pagas entre 25 e 100% acima do preço recomendado pela associação de jornalistas profissionais belga.

A informação de qualidade e plural tem um preço. A discussão sobre como o pagar é essencial. Se os grandes grupos financeiros facilmente podem comprar títulos de imprensa, dando-lhes um teor cada vez mais conservador e precarizando a vida dos seus trabalhadores, as alternativas tardam em surgir. Até que ponto deve o Estado agir de modo a garantir essa pluralidade? Poderão as cooperativas garantir a necessária segurança laboral e a qualidade da informação? Estarão os portugueses disponíveis a bater-se de forma séria por um melhor jornalismo? E estarão dispostos a pagar por isso? São mais perguntas que respostas mas quanto mais tardarmos a discuti-las, mais estaremos a permitir a perpetuação dos abusos.

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