O Pirata Incomum

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   Jean-Baptiste-Siméon Chardin, 1734,  Le Philosophe lisant

O Jornal de Notícias publicou um artigo sobre “a derradeira forma de pirataria”, criada por Peter Sunde, o fundador do Pirate Bay. Kopimashin é uma instalação artística e tem como objectivo fazer cem cópias por segundo da canção “Crazy”, de Gnarls Barkley, enquanto ao mesmo tempo contabiliza o consequente e hipotético prejuízo criado à indústria musical (estimado em 9 milhões de euros, diários).

Saltam à vista as várias interrogações que Kopimashin coloca e repousam elas sobre: a noção de pirataria; a natureza legal do download; o prejuízo pelos descarregamentos criado; a relação que estabelecemos com aquilo que é virtual; entre outros. Quero reter-me no último ponto e e perguntar: quem é que consome as infinitas cópias de “Crazy”?

A referida canção abre com uma estrofe que assim termina: “[e]ven your emotions had an echo/ [i]n so much space” e que está claramente a dialogar com a vocação sem terra à vista de Kopimashin, criadora do maior número de cópias feito. Partindo do princípio de que o espectro emocional de uma realidade virtual, a existir, mimetiza o do humano, são afinal emoções humanas que ocupam os espaços outros, além humanos, sendo o eco a única coisa que criam: num movimento eterno e espelhado: de si, para si – ou seja, nada as reconhece. Então por que razão antropomorfizamos o download?

Se as cópias da instalação de Sunde não criam prejuízo real às empresas que dizem ter prejuízo por causa da pirataria, conservando virtualmente a mesma forma das cópias que são encaradas como avistamentos de piratas, então o que Kopimashin coloca em causa é a valoração do acto de consumo. A minha cópia é igual àquelas que são criadas pela instalação, mas vale mais, porque posso ouvir e portanto consumir. Lembrei-me de George Steiner que, a propósito da pintura de Chardin que ilustra esta entrada, escreveu em “The uncommon reader” (1996, No Passion Spent) sobre a leitura como experiência, e de como a literatura só existe através do fenómeno relacional que é a leitura (ou a audição, no caso das tradições orais). Se um livro fechado é uma história por contar, uma canção copiada é uma acção por vender?

Os problemas criados pelo mundo virtual merecem e devem ser discutidos, exercício que só terá bons resultados se for feito através de um prisma tão disruptivo quanto o da origem dos problemas, sobretudo porque o mundo é hoje mais virtual do que o mundo. Kopimashin já está a fazer esse trabalho, incansavelmente.

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