A chaga do desemprego

Em 1937, George Orwell publica The road to Wigen Pier, onde relata o que viu na sua visita a um Norte da Inglaterra arrasado pela miséria e pelo desemprego. Referindo-se a um dos desempregados que contactou, Orwell escreve o seguinte:

“Alf Smith is merely one of the quarter million [de desempregados], a statistical unit. But no human being finds it easy to regard himself as a statistical unit. (…) Alf Smith is bound to feel himself dishonoured and a failure. Hence that frightful feeling of impotence and despair which is almost the worst evil of unemployment.”

Oitenta anos depois, a análise feita por Orwell continua a fazer todo o sentido. Após um período de emprego quase pleno, sobretudo numa Europa a precisar de se reconstruir após a segunda Grande Guerra, a globalização desregulada e a emergência da automação e de novas tecnologias como parte de uma nova revolução industrial, fizeram com que o número de desempregados aumentasse. Em lugar de se tentar distribuir de forma mais equitativa o emprego existente, a resposta tem sido, no mínimo, antagónica: mais horas de trabalho por semana e mais anos de serviço. Caso não sejam tomadas medidas estruturais, o futuro não parece ser muito reconfortante: o número de cidadãos que se sentem “desonrados e um falhanço” continuará a aumentar, o que terá efeitos imprevisíveis numa sociedade cada vez menos coesa.

A um novo problema não se pode responder com soluções antigas. A criação de emprego não pode tampouco assentar exclusivamente na necessidade de crescimento económico e na produção e consumo, uma vez que tal modelo depende da exploração dos recursos do planeta que, sendo limitados, são finitos. Como nota Orwell, o sentimento de impotência e desespero é provavelmente o pior mal do desemprego. E alguém desesperado é muito mais susceptível de aceitar condições de trabalho extremamente adversas e injustas. Casos como o da Work4U tornar-se-ão certamente cada vez mais comuns. É portanto essencial reformar o conceito de trabalho e tal passa também por separá-lo da necessidade de ter um salário associado.

Uma alteração deste tipo marcaria a entrada numa fase de pós-capitalismo e implica uma séria de transformações noutros domínios. Desde logo, é necessário garantir que aqueles que desempenham tarefas não remuneradas e que actualmente não têm qualquer tipo de rendimento associado, têm condições de poder viver condignamente. É também essencial que aqueles que têm mais rendimentos sejam mais taxados, de modo a que o Estado possa garantir os serviços que lhe estão associados. Mais do que uma fonte de rendimento, um emprego tem que ser uma fonte de realização pessoal.

A economia de partilha – que tem nas tecnologias uma enorme fonte de evolução – bem como o sector cooperativo desempenharão certamente um papel importante nessa transição. Há, no entanto, uma série de riscos associados à economia de partilha que, nos casos mais conhecidos, do Uber ao AirBnB, tem promovido concorrência desleal entre trabalhadores, bem como a menor regulação nos seus sectores de actividade. Apesar disso, projectos de economia de partilha “a sério” têm feito o seu caminho, desde grupos de compra colectivos até sítios de troca de objectos usados.

O objectivo a que devemos apontar enquanto sociedade deve portanto ser o do pleno emprego e, não menos importante, do emprego digno. Ora, tal só será realidade quando os cidadãos tiverem as redes de segurança suficientes de modo a que não se vejam na obrigação de aceitar um emprego que os explore de forma injusta. A existência de um rendimento básico incondicional poderia ser a melhor forma de garantir que tal fosse realidade. Há muitas questões ligadas a tal rendimento que devem ser respondidas – desde logo, qual seria o impacto nas restantes funções sociais do Estado – mas não faz sentido pensar num futuro onde a automação será cada vez mais comum e onde o conceito de trabalho seja revisto, sem pensar neste tipo de rendimento. Nenhuma sociedade aguenta taxas de desemprego elevadas (em alguns países, cerca de 50% dos jovens) durante muito tempo. Para evitar uma mudança repentina e incontrolável é necessário começar desde já a pensar em que futuro queremos e dar passos firmes nessa direcção.

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