Por Deus, pela minha mãe, pelo meu cachorro, pela minha prima Andreia que ainda vai nascer…

Foto retirada do site Esfera Arquitetura.

Os deputados brasileiros e as deputadas brasileiras, demonstraram um aprofundado senso de irresponsabilidade e zombaram da cidadania brasileira ao colocar os cidadãos e as cidadãs em último plano, ou mesmo em plano nulo. Mostraram claramente que eles não estavam preocupados com o país, mas sim com eles próprios. Sem contar os consideráveis erros de ‘portugês’ em seus discursos. 

O dia 18 de abril de 2016 foi um dia lamentável para a democracia brasileira, não somente pela continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, mas porque demonstrou como os representantes democráticos não estão de todo à altura de suas funções.

Em 2014 fui estagiar brevemente com um deputado brasileiro na Câmara dos Deputados do Brasil e saí de lá com a convicção de que o deputado para o qual eu estava estagiando era um, de apenas uma dezena de deputados brasileiros, que entendiam de facto o que significa ser um representante popular e tinha preparação para tal cargo – atenção que a preparação para um cargo de deputado ou deputada, faz-se muito durante o mandato, de acordo com a curiosidade, empenho e boa vontade em aquisição de conhecimentos do eleito ou eleita. Os outros deixaram-me completamente incrédula sobre a ausência de conhecimento e vontade em se tornarem bons representantes democráticos. Eu vinha da minha experiência de assistente de um deputado europeu e quando me deparei com a realidade na Câmara dos Deputados, senti uma indignação substancial por constatar que a política brasileira estava a ser feita por pessoas ferozmente incultas, despreparadas e ignorantes, profundamente ignorantes. Deixei a Câmara e voltei a Portugal com a certeza de que se o Brasil estava ainda longe se tornar um grande país em matérias sociais, ecológicas, científicas, de direitos humanos, segurança, ou seja, avanços em áreas várias, era também por causa da representação fraca, muito fraca, fraquíssima dos deputados eleitos. E na votação do impeachment o mundo saboreou, incrédulo, essa visão que me revoltou em vários níveis.

Vamos por partes. Fazer uma declaração de voto é o mínimo, o básico que um político ou uma política necessita saber. As declarações de voto sobre o impeachment, centenas delas, foram baseadas em tudo, menos numa avaliação concreta sobre o processo de impeachment e a situação atual do Brasil. Centenas de deputados fizeram as declarações de voto em primeiro lugar por um Deus (que não fala), em segundo lugar pelos seus familiares – incluindo falecidos, ou seja, em nome da mãe, do cachorro, da sobrinha que ainda ia nascer, do amigo que morreu… Ou como fez o deputado Jair Bolsonaro que dedicou o seu voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um severo militar da ditadura de 1964-1985. Aproveitaram até para mandar beijos para a família, os filhos, os amigos e a esposa no show encomendado por Eduardo Cunha, o maior corrupto que lá estava e ainda com assento presidencial. Apenas cerca de meia centena de deputados questionaram o presidente da Câmara, que se houvesse realmente uma justiça válida no Brasil, já teria todos os processos contra ele apurados, afinal o que ele merecia era ter saído algemado da assembleia. Mas voltando às declarações de voto, os deputados brasileiros e as deputadas brasileiras, demonstraram um aprofundado senso de irresponsabilidade e zombaram da cidadania brasileira ao colocar os cidadãos e as cidadãs em último plano, ou mesmo em plano nulo. Mostraram claramente que eles não estavam preocupados com o país, mas sim com eles próprios. Sem contar os consideráveis erros de ‘portugês’ em seus discursos.

Eles sabiam que a comunidade internacional estaria em peso assistindo e ao invés de fazerem um bom trabalho – mesmo quem votasse a favor do impeachment, tinha a obrigação, enquanto representante popular do povo brasileiro, de demonstrar que os brasileiros não são tribais como muita gente pensa – mas ao invés disso optaram por fazer a pior atuação que um representante popular poderia fazer. Numa crónica escrita por María Martín, no jornal El País, vemos o mau serviço à democracia dos deputados e deputadas. A autora zomba da atuação dos e das representantes populares num texto que tem por título “Deus derruba a presidenta do Brasil”. Isto lembrou-me que quando fui visitar o plenário, em 2014, chamou-me a atenção um crucifixo pregado na parede, em cima da mesa que preside a assembleia. Achei absolutamente ridículo e revoltante porque o Brasil é um estado laico, contudo ontem ficou claro como a religião ainda interfere na evolução das mentalidades dos brasileiros, a começar por seus representantes que deveriam manter afastada qualquer interferência da religião na política. O que se manifesta na reforma mais difícil de ser fazer nos órgãos governamentais e democráticos porque a religião se transformou em política no Brasil. Não há qualquer pensamento progressista que consiga prevalecer numa sociedade política que atribui a responsabilidade dos seus atos em divindades. Isto é a maior forma de demonstração de que boa parte da política brasileira ainda se faz de uma maneira primitiva, digna da idade média. Fora a preocupação de zelar pelo nome do Brasil na comunidade internacional, eles deveriam obrigatoriamente terem tido uma preocupação, mínima que fosse, com os milhares de brasileiros e brasileiras que os estavam assistindo. Preocupação essa de passarem um bom exemplo, como membros do governo brasileiro, para os jovens, adultos e crianças. Até nisso falharam.

À parte das jocosas declarações de voto, os deputados demonstraram o poder que a corrupção tem no sistema partidário brasileiro e o quanto a disciplina de voto está vincada naquela casa democrática. O jornal americano The New York Times, no dia 14 deste mês, escreveu um artigo delatando que cerca de 60% dos deputados na Câmara estão envolvidos em escândalos judiciais. Além do artigo ter sido um bom serviço prestado à democracia e à justiça, o título é antes de tudo revelador: Dilma Rousseff Targeted in Brazil by Lawmakers Facing Scandals of Their OwnOu seja, obviamente aqueles mais de 300 deputados que votaram a favor do impeachment, possuem eles próprios um pacto com o diabo. O circo montado por Eduardo Cunha e sua quadrilha de criminosos, apenas demonstrou que não havia interesse em defender a dignidade do povo brasileiro, mas sim em defender a busca pelo poder, numa esfera sádica que perpetua a corrupção nos corpos democráticos.

Após a demonstração política do impeachment  não é sensato afirmar que o Brasil está num bom caminho e que o processo foi positivo por se tratar de uma invocação popular. Pessoas que acreditam nisso, ao meu ponto de vista, possuem uma grande falta de informação do que se passa no sistema democrático brasileiro e das pessoas que o compõem. Principalmente sobre as pessoas que o compõem. Em todas essas situações Dilma também é culpada sim, de uma coisa, de ter tido uma atitude soft desde de 2013 com essa corja que tramava, nem era sob suas costas, mas declaradamente contra ela. Ela escolheu ser uma presidente cordial e não cavou apenas a sua própria cova, mas também de todos os brasileiros e brasileiras e até do próprio Deus. Sim, porque nessa nova realidade brasileira nietzscheana, Deus está morto, sempre esteve e sempre estará enquanto for gente como aquela a proferir o seu nome e a convidá-lo para fazer política num estado laico.

A próxima votação que nos deixará perplexos será provavelmente a votação pelo porte de armas de civis. Não me espanta nada que os dinossauros políticos instaurados no Brasil e pior, eleitos democraticamente, decidam a favor dessa balela. Afinal poderão eles mesmos andar legalmente armados e chacinarem-se uns aos outros em pleno plenário. E claro, como a justiça no Brasil é tendenciosa, dependendo da conta bancária e dos potenciais favores conseguidos, sairão tão ilesos como se estivessem a atirar confetes naquela casa carnavalesca que é a Câmara dos Deputados do Brasil – lá o carnaval é o ano todo. Tenham vergonha!

***

(Nota: Em Lisboa um grupo de brasileiros, incluindo brasileiros que vieram estudar em Portugal com o apoio do governo brasileiro, fundaram o Coletivo Andorinha: Frente Democrática Brasileira de Lisboa. Podem conhecer mais sobre a iniciativa através da sua página de Facebook.)

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One thought on “Por Deus, pela minha mãe, pelo meu cachorro, pela minha prima Andreia que ainda vai nascer…

  1. Foi de facto de uma indignidade indefensável a prestação da generalidade dos deputados brasileiros ontem. E pior do que a palhaçada da celebração, da invocação das famílias, dos deuses e das terrinhas, é perceber que poucos sequer referem os factos que poderiam estar na base de uma destituição de acordo com a lei brasileira. Todos sabemos que nunca foi essa a questão, mas ver os deputados a assumir claramente que se estão pouco lixando para a sustentação legal, que querem é por a Dilma dali para fora, pouco importa ter sido eleita, é o golpe potencialmente fatal na democracia representativa brasileira.
    Como uma coisa tão circense pode ser tanto de rir como de chorar em desespero.

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