Racismo em português – A desconstrução de um mito

Racismo em português – O lado esquecido do colonialismo junta os textos e os vídeos (num dvd que acompanha o livro) que foram sendo publicados no jornal Público ao longo do ano de 2015, quando se celebraram 40 anos de independência na maioria das ex-colónias portuguesas em África. Este livro não é, portanto, um livro de investigação académica, mas sim um livro de relatos, de histórias, de vivências, de pensamentos e de opiniões, o que faz com a sua leitura seja fluida. Com mais de cem entrevistas feitas em Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, a jornalista Joana Gorjão Henriques tinha um objectivo declarado: perceber até que ponto foi o colonialismo português mais brando que o de outros países e entender quais são, ainda hoje, as consequências de séculos de políticas coloniais.

Publicado pela Tinta-da-China, este livro começa a ser lido e entendido pela (mais uma) excelente capa: fundo negro, como negra é a pele da população nativa das ex-colónias, bota branca, como branca é a pele dos colonizadores, desmesuradamente grande e salpicada de um vermelho a fazer lembrar a cor do sangue. Contrariamente ao usual, é também este vermelho-sangue que colora as folhas de guarda, tanto no início como no final do livro.

Este livro tem o enorme mérito de desconstruir a ideia de que houve apenas um tipo de colonialismo português em África. Pelo contrário, Portugal promoveu vários colonialismos, criando tensões entre comunidades e etnias que ainda hoje se fazem sentir. É também um livro importante na medida em que tenta desmontar a ideia do lusotropicalismo de Gilberto Freyre, teoria que, ainda nos dias de hoje, continua a ter enorme popularidade junto dos portugueses. Bruno Vieira Amaral, na crítica que faz ao livro no sítio do Observador, afirma, por duas vezes (como querendo convencer-se a si próprio), que Racismo em português corre o risco de “apresentar como intacto um mito [lusotropicalismo] já desfeito várias vezes”. Mas será que foi mesmo? Como é, em 2016, estudado o período colonial? Seremos um país que já fez as pazes com os esqueletos que guarda no armário? O simples facto de nos considerarmos “descobridores” e não “conquistadores” como os espanhóis não dirá já quase tudo sobre o modo como, enquanto país, vemos o nosso colonialismo?

Foi o colonialismo português diferente dos restantes? Certamente que sim, do mesmo modo que os outros também foram diferentes entre si. Terá sido mais brando? Lendo os relatos apresentados neste livro torna-se difícil responder que sim a essa questão. De um sistema de apartheid em Moçambique e Angola, à escravatura (mascarada de “contratados”) em São Tomé e Príncipe em plena 2ª metade do século XX, não faltam exemplos que desmentem a ideia da brandura do colonialismo português.

Mas nem sempre a agressão se fazia de forma física. Para controlar os nativos, era necessário rebaixá-los, despi-los de toda e qualquer forma de identidade e moldá-los à medida do colonialismo. Para além da obrigação da alteração do nome de modo a soar português e do vergonhoso estatuto do indigenato que pretendia fomentar a assimilação, há um exemplo quase cómico que mostra até que ponto o colonialismo português não admitia variações à sua visão de identidade. Conta Fernanda Pontífice, ex-ministra da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe, que, numa composição sobre frutos pedida na escola primária, todos aqueles que não fossem frutos existentes em Portugal (tais como a maioria dos frutos existentes no seu país) eram riscados e não considerados.

O colonialismo fará sempre parte da história portuguesa; e, sendo História, não temos que nos sentir culpados por aquilo que os nossos antepassados fizeram. Não devemos, ou melhor, não podemos, é permitir que se prolongue o mito do colonialismo brando. Temos que, sem qualquer tipo de complexo, olhar para a nossa própria história e, assumindo os erros cometidos, com ela aprender. Este não é um livro neutro e nem o pretende ser. Não é tampouco um livro de respostas, sendo antes um livro que coloca muitas e boas questões, concentradas nas seis perguntas com que autora termina a introdução e de onde destaco uma: até quando iremos contribuir para uma mentalidade acrítica sobre um dos fenómenos mais violentos da nossa história? Nesse sentido, uma das frases de Frantz Fanon, um dos principais pensadores do (pós)colonialismo, continua actual: “Ó meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!”

“Racismo em Português: O Lado Esquecido do Colonialismo”, de Joana Gorjão Henriques (Tinta da China) – Preço €14,31 (inclui DVD)

 

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