Muito mais que apenas futebol

 

Abril de 1958, os campeonatos nacionais a chegar ao fim e o Mundial da Suécia à porta. Em França, o AS Saint-Étienne defende o título de campeão nacional, tendo como avançado Rachid Mekhloufi, nascido na Argélia e também militar no exército francês. Lesionado durante um jogo, fica internado dois dias no hospital, onde a visita de dois conhecidos mudaria para sempre a sua vida e o faria entrar no restrito clube das lendas.

A guerra pela independência argelina levava já uns anos e os massacres somavam-se uns aos outros. Originário da cidade de Sétif, Rachid tinha ainda cravada na sua memória a recordação da chacina aí levada a cabo pelas tropas francesas em 1945, durante uma manifestação de alegria pelo fim da segunda guerra mundial e que se transformara em manifestação anti-colonialista. Assim, quando Mokhtar Arribi e Abdelhamid Kermali, também eles de Sétif e jogadores de futebol em França, o convidam a fugir – tornando-se, pela sua ligação ao exército, num desertor – e a juntar-se à selecção da nação de um país que ainda não existia, não houve qualquer hesitação. A este grupo juntar-se-iam mais nove jogadores (dois deles acabariam detidos na fronteira à saída de França) que, chegados a Túnis, se tornariam na selecção de futebol da “Front de Libération Nationale”, lutando, no campo de jogo, pela independência da Argélia.

Para termos uma ideia da coragem destes homens, basta dizer que todos viviam de modo confortável em França, tendo mesmo alguns deles representado a selecção nacional e sendo, portanto, potenciais convocados para o Mundial na Suécia, onde a França acabaria por conseguir o terceiro posto. Deixar a sua antiga vida para trás, quando a independência argelina era ainda uma incerteza – os acordos de Évian, que resultaram num cessar-fogo entre as partes envolvidas no conflito franco-argelino, seriam assinados apenas quatro anos mais tarde – é um acto político de enorme dimensão. Realizando dezenas de jogos em vários países árabes, do Leste europeu e do Sudeste asiático (onde encontrariam Ho Chin Minh e Vo Nguyen Giap), esta selecção foi uma autêntica bandeira móvel pela causa independentista.

Esta história é resgatada pelo livro “Un maillot pour l’Algérie” (Dupuis, 2016) que, no formato banda-desenhada, dá a conhecer ao grande público um episódio pouco conhecido da guerra pela independência argelina. A narrativa serve também para lembrar como o futebol, enquanto fenómeno cultural, popular e de massas, tem um poder político inegável. Muitas vezes usado para legitimar regimes autoritários e anti-democráticos (veja-se a Argentina de Videla durante o Mundial de 1978), o desporto-rei é também muitas vezes uma arma pela democracia e pelas liberdades. De equipas como o FC Sankt Pauli a jogadores como Sócrates e a sua democracia corintiana, não faltam exemplos de futebol associado às causas justas. E como seria bom que estes exemplos, passados e presentes, servissem de inspiração ao futebol dos nossos dias. Até porque em campo são onze contra onze mas, fora dele, tudo é muito mais que apenas futebol.

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