Da extrema-direita para a União Europeia, com amor

Foi há meia dúzia de dias, e ainda está bem presente nas nossas mentes, o homicídio – eu prefiro chamar-lhe assassinato – da deputada trabalhista britânica Jo Cox* por um nacionalista de extrema-direita que gritou o nome daquele mini-partido que nunca tinha sido falado em Portugal, uma espécie de PNR lá do sítio, o britain first (as minúsculas são propositadas).

Ainda que o tal partido diga que nada tem a ver com o assassino, é interessante ver qual é a resposta dos nacional-fascistas à dedicação de alguém a causas humanitárias que tanto incomodam os ignorantes. À falta de argumentos que rebatam os factos para tentar conquistar o voto, e estou claramente a falar de quem usa a “ameaça” da imigração e dos empregos que os “estrangeiros” vão roubar para apoiar a saída do Reino Unido da União Europeia, a violência parece ser a resposta mais fácil. E é, claro. Mas nem sempre corre como esperado.

Hoje, pela primeira vez em não sei quanto tempo, as sondagens voltaram a pender para o lado do Remain, deixando Nigel Farage, Boris Johnson e restante compadrio a tremer. O empate a 44% (ver imagem abaixo) do Financial Times mostra que a resposta a esta ameaça está a ser bastante clara: união contra desestabilização.

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Se este brutal ataque perpetrado pela extrema-direita nacionalista britânica vai ter alguma repercussão, será uma completamente contrária ao pretendido: o remain vai acabar por ganhar. E os Farages e Boris deste mundo vão perder mais uma batalha.

 

*Não há homenagens suficientes que possam ser feitas ao honroso trabalho da deputada Jo Cox. Ficará para a história como um trágico símbolo de esperança e união.

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Do medo à esperança

As notícias que foram chegando a Portugal nas últimas semanas davam como praticamente certa a vitória do candidato da extrema-direita na segunda volta das eleições austríacas. Após um resultado acima do esperado na primeira volta, Norbert Hofer parecia ter a eleição garantida. Isto tendo em conta a análise dos principais órgãos de comunicação social – portugueses e europeus – que nem sempre se deram ao trabalho de fazer uma investigação jornalística com o nível de detalhe suficiente. O facto de um candidato de extrema-direita ter um resultado elevado é, e deve ser sempre, razão para notícia mas é preciso saber destrinçar os factos à luz da história eleitoral do país em causa e saber fazer uma avaliação crítica dos mesmos. Enquanto o foco esteve virado para Hofer, pouca atenção foi dada ao seu rival, o ecologista Van der Bellen, que, contados os votos, acabou por se tornar no novo presidente do país. À semelhança de Portugal, o presidente da República austríaca não tem poder executivos. Ainda assim, sendo o chefe de Estado, as suas ideias e o seu poder – real ou simbólico – têm uma grande importância.

Após anos de uma gestão deficiente da crise económica a nível europeu e de uma vergonhosa actuação perante a crise de refugiados, a extrema-direita tem conseguido crescer em vários pontos do continente. Ainda ontem, nas eleições ao parlamento cipriota, o partido neo-nazi ELAM conseguiu, pela primeira vez na história do país, ter representantes eleitos. O medo do regresso a um passado obscuro e não muito distante na história europeia, alimentado por uma comunicação social preguiçosa e alimentadora de informação incorrecta, parece pois estar a tomar conta de muitos cidadãos europeus. Por outro lado, há também uma esperança que, embora quase sem cobertura mediática, vai fazendo o seu caminho e o caso austríaco é paradigmático.

Filho de refugiados, cosmopolita e com uma visão ecologista, Van der Bellen representa bem todos aqueles que não nos conformamos com um regresso às soberanias nacionais e a um continente com as fronteiras encerradas. A defesa de um comunitarismo soberanista – infelizmente tão cara a uma certa esquerda europeia – tem nas ideias do novo presidente austríaco uma alternativa radicalmente diferente. Após o primeiro chefe de executivo da Esquerda Europeia, temos agora o primeiro chefe de Estado ecologista e progressista. Aqueles que achavam que a União Europeia estava condenada a cair sobre o peso da sua burocracia e do seu conservadorismo ou a ceder lugar à extrema-direita e ao Estado-nação como soberano exclusivo, terão que repensar a sua avaliação. Aqueles que defendem o centrão, onde dificilmente se distingue um partido social-democrata de um partido conservador, como solução para todos os males também se verão obrigados à mesma análise. Com poucos votos de diferença, a vitória de Van der Bellen transformou o que seria uma vitória do medo numa vitória da esperança. Que outros lhe saibam seguir o caminho.

 

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LGBTQAfobia na saúde

Hoje celebrou-se o Dia Internacional Contra a Homofobia, Lesbofobia e Transfobia. Bem, alguns celebraram. Outros ainda não conseguem celebrar estas coisas. Alguns acham que é inútil, outros que é errado. Alguns acham que o que é errada é a própria questão da orientação sexual. Uns porque acham que tudo o que não é heterossexual é anomalia e doença, outros porque ainda acham que é uma opção e que portanto só por arrogância ou perversão alguém pode escolher ser assim ou assado e com isso magoar-se e magoar os que esperavam de si algo “normal”.

Portanto recomeço, hoje alguns de nós celebrámos o dia em que se pretende mostrar uma união entre os povos na luta contra a discriminação na orientação sexual e identidade de género. Como trabalho em saúde, contexto no qual esta questão tem particularidades relevantes, e depois de chamado à atenção pelo texto da Agência Europeia dos Direitos Fundamentais, ocorreu-me escrever sobre o assunto. Por um lado, porque no meio de tanta desatualização de que os médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais sofrem, parece que ainda há espaço para pessoas que vivem no medievalismo de considerar a homossexualidade doença. Por outro lado, porque a discriminação na saúde não só reflete como propaga um preconceito profundo e é um agente ativo do sofrimento de pessoas destes grupos.

Quanto ao primeiro ponto, não há muito a dizer. Já é mais que claro que as organizações responsáveis não consideram estas questões do domínio da patologia. Esse erro crasso e histórico já foi em grande parte revogado. Pelo menos nos papéis.

Quanto ao segundo, já não é tão simples. E infelizmente o segundo influencia o primeiro. Por um lado, as crenças do profissional de saúde, ainda que não devam, conseguem sempre influenciar a sua postura, a sua conversa, a sua interação. Por outro, podem fazê-lo muito mais resistente à mudança, por exemplo na questão de “acreditar” que a homossexualidade “afinal” não é doença. É ainda relevante pensar nos profissionais de saúde como líderes de opinião e conhecimento nas suas comunidades. Quando são eles a presumir certas normalidades, essa ideia é transmitida ou reforçada nos seus utentes/doentes. Para além disto, o comportamento discriminatório por parte do profissional tem o potencial de ter um impacto especial na vítima. É demasiadas vezes feita referência à discriminação nos cuidados de saúde como potencial confundidor nos diagnósticos, por exemplo pela presunção da presença ou ausência de determinados comportamentos sexuais. A história do VIH deixou-nos, naturalmente, traumatizados. Mas com este texto pretendo chamar à atenção a uma vertente talvez mais simples mas também muito mais frequente e generalizada. Como médico de família, a simples pergunta “ tens namorada?” – que é uma ponte fácil para abordar o tema da sexualidade na consulta com o adolescente – pode não só estragar a relação de confiança com o meu utente rapaz homossexual, como aumentar o seu sofrimento, um potencial sentimento de insegurança, de anomalia, de culpa, de incapacidade de aceitação, e diminuir consideravelmente a probabilidade de ele recorrer à minha consulta quando a questão for a sexualidade. E se eu, que me considero informado e preocupado com esta questão, me deixo por vezes cair nesta armadilha da educação heteronormativa, o que não será o habitual nas consultas e contactos com profissionais com mentes “menos abertas”? A resposta a esta pergunta já existe em vários inquéritos feitos a profissionais de saúde e a utentes. É péssimo.

Os profissionais de saúde são, assim, uma população em que é importante investir particularmente se queremos evitar sofrimento e acelerar a eliminação do preconceito na sociedade. O problema põe-se, então, no “como”. Como chegar a estas pessoas e mudar a sua postura? Não resultou ter a OMS e a UE a declarar que a homossexualidade não é doença, que os países deviam deixar de exigir diagnósticos de perturbações para oferecer cirurgias de reatribuição sexual ou reconhecer o género pretendido na identificação civil do indivíduo. Não chegaram os artigos científicos nem os programas na televisão. Não chegou o passar do tempo. Este é o ponto neste momento. E deve ser prioritário.

Isto muda tudo

Publicado originalmente em Setembro de 2014 e em português no final de Fevereiro deste ano – este livro é ambicioso no seu título: This changes everything (Tudo pode mudar, na tradução portuguesa). Isto muda tudo. Se o título não permite adivinhar a que corresponde o “isto” nem o que será mudado, o sub-título escolhido pela autora é clarificador: “Capitalismo vs Clima”. O conflito e a impossível relação entre o actual modelo de capitalismo, assente no livre-comércio e nas energias fósseis, e a sustentabilidade do nosso planeta, quantificada no aumento máximo da temperatura média do planeta em 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, é o elemento central do livro.

Num estilo que lhe é muito próprio, Naomi Klein apoia todas as suas afirmações de forma exaustiva, como que querendo mostrar que por mais aterrador que seja o descreve, tal corresponde apenas e só a factos concretos e comprováveis. Se esta fundamentação exaustiva pode, por vezes, resultar demasiado pesada à leitura do livro, nunca se torna impeditiva de uma leitura agradável e fluída. À semelhança dos seus livros anteriores – “A doutrina de choque” e “No logo” – também este tem a capacidade de nos assustar com a realidade. E o que está em jogo é o nosso próprio futuro colectivo.

Analisando o impacto das alterações climáticas, no presente e no futuro, Klein traça um cenário quase-apocalíptico, desde o aumento de fenómenos extremos como furacões e tufões até longos períodos de cheias e secas. O ponto em comum de todos estes fenómenos é o facto de as principais vítimas serem aqueles que menos contribuíram para as alterações climáticas, nomeadamente os habitantes dos países mais pobres. Nos países do Norte global os efeitos nefastos far-se-ão também sentir mas, como demonstrado, serão uma vez mais as populações mais pobres a sofrer as principais consequências.

Ao terminar o livro fica-se com uma sensação mista. Por um lado, parece que chegamos a um ponto de não-retorno, arrastados por um modelo de capitalismo selvagem e cego e que sobretudo desde os anos 80 tem levado tudo à sua frente. A manutenção de um modelo de livre-comércio extremo e sem barreiras, dependente da extracção de combustíveis fósseis em locais cada vez mais remotos e recorrendo a técnicas cada vez mais perigosas e inquinadoras, são tidos como responsáveis pelo aumento constante das emissões de gases de efeito de estufa nos últimos anos, excepção feita a 2009, no auge da actual crise financeira. Tudo isto sabendo-se há muito os efeitos que essas emissões têm no imediato e a longo prazo. A autora é também clara ao afirmar que as grandes organizações ambientalistas não são, em si mesmas, a garantia de uma defesa eficaz e coerente de um modelo de desenvolvimento diferente. Aliás, é dado um exemplo de uma das principais associações ambientalistas americana que, no seu próprio terreno, procede à extracção de combustíveis fósseis.

Por outro lado, o livro dá-nos também alguma esperança. Tendo percorrido o globo à procura de exemplos de blockadias (locais onde as populações se juntam para tentar evitar a concretização de algum projecto que lhes será nocivo), a autora fala-nos de algumas derrotas mas também de várias vitórias, de como grupos de cidadãos de todas as idades e de várias origens se juntaram e conseguiram dizer Não às grandes empresas multinacionais. Da Grécia à Nigéria, do Equador até ao Canadá natal de Klein, são vários e bem documentados estes casos, bem como o da ligação em rede destas lutas. Lendo o livro mais de um ano após a sua saída, podemos também saber o que aconteceu em alguns destes locais: Balcombe, localidade britânica que resistiu à exploração de gás de xisto no seu solo, preferindo avançar para um modelo cooperativo de energias renováveis, viu-se obrigado a desistir do seu projecto, devido às alterações legislativas levadas a cabo pelo governo conservador de David Cameron; nos Estados Unidos, aquele que é provavelmente o projecto mais citado no livro, o oleoduto “Keystone XL” que deveria importar petróleo extraído de forma altamente poluente das areias betuminosas canadianas, foi rejeitado por Barack Obama, após enorme mobilização, com especial destaque para as comunidades indígenas, dos dois lados da fronteira.

Este livro é também um apelo à esquerda. Historicamente, a relação da esquerda com a ecologia nem sempre foi pacífica. Com o seu olhar meticuloso, Naomi Klein apela às forças de esquerda de todo o mundo a que façam da defesa da ecologia uma das suas principais bandeiras e que a usem como ferramenta para atingir outros objectivos políticos, com especial incidência na melhor redistribuição de recursos. A um problema desta escala, a resposta deve assentar em soluções radicais e a autora aponta alguns caminhos: transição energética para as energias renováveis e descentralizadas, financiado por um New Deal à escala global.

Mais do que um simples livro, este é também um guia para a esquerda ecologista. Quando os resultados da cimeira COP21 ficaram aquém do necessário e na ausência de um compromisso global vinculativo para limitar as emissões de gases de efeito de estufa, é impossível ficar indiferente ao seu conteúdo. Este livro muda efectivamente tudo. Com toda a informação que nos dá, poderemos continuar a virar a cara à realidade?

O mal menor

Há números que são mais eficazes que qualquer texto a dar ideia da dimensão de um conflito. Na Síria, desde o início da guerra civil, doze porcento da população morreu ou ficou ferida. Paremos um instante para digerir este valor. Doze porcento, mais do que uma a cada dez pessoas. Quanto a mortos, o número já ultrapassou o meio milhão. Como termo de comparação, as estimativas mais elevadas sobre o número de mortes na guerra dos Balcãs é de 250 mil. Metade. Números, uma vez mais, mostram claramente quem é o responsável pela grande maioria das vítimas: o ditador Al-Assad. Como pode então haver um tão grande silêncio, uma tão grande complacência em relação ao ditador que não aceita sequer que se discuta a sua saída?

Com um artigo forte e um título provocador – “Porque não se manifestam os pacifistas do ocidente contra Assad?” – a jornalista italiana Francesca Borri coloca-nos, enquanto sociedade, várias questões. Por que razão não nos mobilizamos contra uma ditadura que tantas vítimas tem provocado do mesmo modo que nos manifestamos noutras ocasiões? A resposta, conclui, parece ser o facto de Assad ser laico o que, aos nossos olhos, permitiria a aceitação de todo o tipo de crimes, desde que impedindo os islamitas de tomar o poder. Apesar de sanguinário, surge, aos olhos de muitos democratas, como o mal menor. Se em relação à Jugoslávia já se podiam seguir os eventos diariamente, no que toca à Síria há um acompanhamento ao instante, graças às redes sociais. Não é certamente pela falta de conhecimento dos crimes cometidos pelo regime que preferimos Assad a uma alternativa.

Após um apoio inicial aos rebeldes, maioritariamente laicos, que inicialmente se revoltaram contra o regime, o crescimento e o controlo de algumas áreas do país por parte de grupos islamitas, seguida da criação e ascensão do daesh, fizeram-nos ficar de pé atrás. Os exemplos vindos de outros países da Primavera Árabe, certamente não ajudaram. Se é verdade que em alguns meios a luta dos curdos, pela revolução dentro da revolução e pelo seu experimentalismo democrático, mantiveram a nossa atenção, a luta de grupos como o Exército Livre da Síria deixou de ter qualquer destaque à medida que foram perdendo força no país. Agora, os únicos países que parecem ter uma ideia clara para o que querem do país – Irão, Rússia, Arábia Saudita, Turquia – estão preocupados com tudo menos com a democracia e a vida dos cidadãos sírios.

Se, como União Europeia, tivéssemos, desde a primeira hora, apoiado uma alternativa à ditadura de Assad – e essa oportunidade existiu durante os primeiros meses após o levantamento – o cenário poderia ser diferente. Se tivéssemos ajudado e preparado a juventude síria que agora ou fica no país para morrer ou arrisca a sua vida fugindo, não estaríamos certamente a defender o mal menor. Como nota Borri, parece que “somos apenas pela democracia se os seus cidadãos forem como nós”. E não pode ser assim. A defesa pela democracia tem que ser intransigente e incondicional. Se tenho uma alternativa a Assad a propor? Infelizmente não. Mas não nos deixemos apanhar a defender o mal menor como a boa solução.

Bons ventos e bons casamentos

Finda a segunda ronda de consulta aos partidos políticos espanhóis e dada a impossibilidade de encontrar uma maioria dos deputados que apoie a investidura de um novo governo, o rei Felipe VI viu-se obrigado a convocar novas eleições. A data já está marcada: 26 de Junho, mais de seis meses após a eleição inicial e três dias após o referendo sobre o Brexit. Os próximos meses, entre as questões da maior ou menor autonomia das diferentes regiões espanholas, da economia e do sempre elevado desemprego, serão pois decisivos na definição do futuro do país. Sendo de esperar, novamente, um resultado sem vencedor absoluto, espera-se um jogo onde todos terão que ceder.

É difícil fazer a comparação entre Portugal e Espanha, de tão diferentes que são as realidades políticas mas, apesar disso, uma coisa é certa: apenas um novo governo espanhol progressista poderá servir os interesses de uma frente europeia anti-austeridade e que ajude à construção de uma União Europeia mais democrática e igualitária. Se parece ter ficado claro que uma coligação que junte Ciudadanos e Podemos é impossível, é importante que os partidos de esquerda mantenham o diálogo e a abertura para uma coligação que, caso os resultados sejam favoráveis, permita a governação. Não é ainda claro quem saiu mais beneficiado ou mais prejudicado pelo facto de não se ter conseguido um acordo de governo mas caso se confirme a candidatura conjunta do Podemos (e os vários movimentos que lhe estão mais ou menos associados) e a Izquierda Unida, a possibilidade de uma maioria de esquerda no parlamento é bastante real.

Até há bem poucos meses, eram poucos os que em Portugal acreditavam num governo socialista apoiado pelos partidos à sua esquerda. Apesar disso, a “geringonça” ganhou vida e instituiu uma nova forma de governar. E os resultados positivos estão à vista, tanto a nível nacional como a nível internacional.

Para além da reposição salarial, da reposição dos feriados retirados pelo anterior governo, temos, após anos de seguidismo e baixo-orelhismo, um governo que assume as suas posições, independentemente de estas chocarem com a hegemónica perspectiva austeritária com epicentro em Berlim. Nesse sentido, é exemplar a comparação entre a reacção de Passos Coelho à vitória do Syriza na Grécia e a declaração anti-austeridade assinada por Costa e Tsipras há poucas semanas. Resta, é certo, um longo caminho a percorrer, mas serão poucos os que à esquerda e apesar de todas as limitações, prefeririam que este governo não tivesse visto a luz do dia. Da Grécia de Tsipras ao Reino Unido de Corbyn, passando por todos os movimentos transnacionais, este é o momento de lutar por uma Europa dos povos verdadeiramente democrática. Um passo nesse sentido pode ser dado em Espanha, bastando que invertam o nosso ditado e vejam que pelo menos ao nível de alianças políticas lhes chegam bons ventos e bons casamentos.

Por Deus, pela minha mãe, pelo meu cachorro, pela minha prima Andreia que ainda vai nascer…

Foto retirada do site Esfera Arquitetura.

Os deputados brasileiros e as deputadas brasileiras, demonstraram um aprofundado senso de irresponsabilidade e zombaram da cidadania brasileira ao colocar os cidadãos e as cidadãs em último plano, ou mesmo em plano nulo. Mostraram claramente que eles não estavam preocupados com o país, mas sim com eles próprios. Sem contar os consideráveis erros de ‘portugês’ em seus discursos. 

O dia 18 de abril de 2016 foi um dia lamentável para a democracia brasileira, não somente pela continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, mas porque demonstrou como os representantes democráticos não estão de todo à altura de suas funções.

Em 2014 fui estagiar brevemente com um deputado brasileiro na Câmara dos Deputados do Brasil e saí de lá com a convicção de que o deputado para o qual eu estava estagiando era um, de apenas uma dezena de deputados brasileiros, que entendiam de facto o que significa ser um representante popular e tinha preparação para tal cargo – atenção que a preparação para um cargo de deputado ou deputada, faz-se muito durante o mandato, de acordo com a curiosidade, empenho e boa vontade em aquisição de conhecimentos do eleito ou eleita. Os outros deixaram-me completamente incrédula sobre a ausência de conhecimento e vontade em se tornarem bons representantes democráticos. Eu vinha da minha experiência de assistente de um deputado europeu e quando me deparei com a realidade na Câmara dos Deputados, senti uma indignação substancial por constatar que a política brasileira estava a ser feita por pessoas ferozmente incultas, despreparadas e ignorantes, profundamente ignorantes. Deixei a Câmara e voltei a Portugal com a certeza de que se o Brasil estava ainda longe se tornar um grande país em matérias sociais, ecológicas, científicas, de direitos humanos, segurança, ou seja, avanços em áreas várias, era também por causa da representação fraca, muito fraca, fraquíssima dos deputados eleitos. E na votação do impeachment o mundo saboreou, incrédulo, essa visão que me revoltou em vários níveis.

Vamos por partes. Fazer uma declaração de voto é o mínimo, o básico que um político ou uma política necessita saber. As declarações de voto sobre o impeachment, centenas delas, foram baseadas em tudo, menos numa avaliação concreta sobre o processo de impeachment e a situação atual do Brasil. Centenas de deputados fizeram as declarações de voto em primeiro lugar por um Deus (que não fala), em segundo lugar pelos seus familiares – incluindo falecidos, ou seja, em nome da mãe, do cachorro, da sobrinha que ainda ia nascer, do amigo que morreu… Ou como fez o deputado Jair Bolsonaro que dedicou o seu voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um severo militar da ditadura de 1964-1985. Aproveitaram até para mandar beijos para a família, os filhos, os amigos e a esposa no show encomendado por Eduardo Cunha, o maior corrupto que lá estava e ainda com assento presidencial. Apenas cerca de meia centena de deputados questionaram o presidente da Câmara, que se houvesse realmente uma justiça válida no Brasil, já teria todos os processos contra ele apurados, afinal o que ele merecia era ter saído algemado da assembleia. Mas voltando às declarações de voto, os deputados brasileiros e as deputadas brasileiras, demonstraram um aprofundado senso de irresponsabilidade e zombaram da cidadania brasileira ao colocar os cidadãos e as cidadãs em último plano, ou mesmo em plano nulo. Mostraram claramente que eles não estavam preocupados com o país, mas sim com eles próprios. Sem contar os consideráveis erros de ‘portugês’ em seus discursos.

Eles sabiam que a comunidade internacional estaria em peso assistindo e ao invés de fazerem um bom trabalho – mesmo quem votasse a favor do impeachment, tinha a obrigação, enquanto representante popular do povo brasileiro, de demonstrar que os brasileiros não são tribais como muita gente pensa – mas ao invés disso optaram por fazer a pior atuação que um representante popular poderia fazer. Numa crónica escrita por María Martín, no jornal El País, vemos o mau serviço à democracia dos deputados e deputadas. A autora zomba da atuação dos e das representantes populares num texto que tem por título “Deus derruba a presidenta do Brasil”. Isto lembrou-me que quando fui visitar o plenário, em 2014, chamou-me a atenção um crucifixo pregado na parede, em cima da mesa que preside a assembleia. Achei absolutamente ridículo e revoltante porque o Brasil é um estado laico, contudo ontem ficou claro como a religião ainda interfere na evolução das mentalidades dos brasileiros, a começar por seus representantes que deveriam manter afastada qualquer interferência da religião na política. O que se manifesta na reforma mais difícil de ser fazer nos órgãos governamentais e democráticos porque a religião se transformou em política no Brasil. Não há qualquer pensamento progressista que consiga prevalecer numa sociedade política que atribui a responsabilidade dos seus atos em divindades. Isto é a maior forma de demonstração de que boa parte da política brasileira ainda se faz de uma maneira primitiva, digna da idade média. Fora a preocupação de zelar pelo nome do Brasil na comunidade internacional, eles deveriam obrigatoriamente terem tido uma preocupação, mínima que fosse, com os milhares de brasileiros e brasileiras que os estavam assistindo. Preocupação essa de passarem um bom exemplo, como membros do governo brasileiro, para os jovens, adultos e crianças. Até nisso falharam.

À parte das jocosas declarações de voto, os deputados demonstraram o poder que a corrupção tem no sistema partidário brasileiro e o quanto a disciplina de voto está vincada naquela casa democrática. O jornal americano The New York Times, no dia 14 deste mês, escreveu um artigo delatando que cerca de 60% dos deputados na Câmara estão envolvidos em escândalos judiciais. Além do artigo ter sido um bom serviço prestado à democracia e à justiça, o título é antes de tudo revelador: Dilma Rousseff Targeted in Brazil by Lawmakers Facing Scandals of Their OwnOu seja, obviamente aqueles mais de 300 deputados que votaram a favor do impeachment, possuem eles próprios um pacto com o diabo. O circo montado por Eduardo Cunha e sua quadrilha de criminosos, apenas demonstrou que não havia interesse em defender a dignidade do povo brasileiro, mas sim em defender a busca pelo poder, numa esfera sádica que perpetua a corrupção nos corpos democráticos.

Após a demonstração política do impeachment  não é sensato afirmar que o Brasil está num bom caminho e que o processo foi positivo por se tratar de uma invocação popular. Pessoas que acreditam nisso, ao meu ponto de vista, possuem uma grande falta de informação do que se passa no sistema democrático brasileiro e das pessoas que o compõem. Principalmente sobre as pessoas que o compõem. Em todas essas situações Dilma também é culpada sim, de uma coisa, de ter tido uma atitude soft desde de 2013 com essa corja que tramava, nem era sob suas costas, mas declaradamente contra ela. Ela escolheu ser uma presidente cordial e não cavou apenas a sua própria cova, mas também de todos os brasileiros e brasileiras e até do próprio Deus. Sim, porque nessa nova realidade brasileira nietzscheana, Deus está morto, sempre esteve e sempre estará enquanto for gente como aquela a proferir o seu nome e a convidá-lo para fazer política num estado laico.

A próxima votação que nos deixará perplexos será provavelmente a votação pelo porte de armas de civis. Não me espanta nada que os dinossauros políticos instaurados no Brasil e pior, eleitos democraticamente, decidam a favor dessa balela. Afinal poderão eles mesmos andar legalmente armados e chacinarem-se uns aos outros em pleno plenário. E claro, como a justiça no Brasil é tendenciosa, dependendo da conta bancária e dos potenciais favores conseguidos, sairão tão ilesos como se estivessem a atirar confetes naquela casa carnavalesca que é a Câmara dos Deputados do Brasil – lá o carnaval é o ano todo. Tenham vergonha!

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(Nota: Em Lisboa um grupo de brasileiros, incluindo brasileiros que vieram estudar em Portugal com o apoio do governo brasileiro, fundaram o Coletivo Andorinha: Frente Democrática Brasileira de Lisboa. Podem conhecer mais sobre a iniciativa através da sua página de Facebook.)