Ocupar os sonhos

Na política esquecemo-nos de uma coisa essencial: a política foi criada para incentivar os sonhos, de outra forma ela não tem razão de ser. Lembro-me de, ainda adolescente, ver na televisão a luta dos “sem terra”, nome quase pejorativo que se referia às pessoas que invadiam as terras abandonadas em algumas regiões do Brasil. Numa das entrevistas que vi, escorria suor da face de uma mulher, vestida com uma roupa velha a olho nu e com uma pá na mão. Da boca dessa senhora saiu uma frase que nunca mais me esqueci: “terra abandonada a gente não invade, a gente ocupa.”. Em adolescente eu não sabia o que significavam ao certo aquelas palavras, mas gostei de tê-las ouvido e o movimento dos “sem terra”, na década de 90 do século passado, foi a minha primeira experiência política: desejei fortemente que todas as pessoas pudessem ter a sua casa e condições dignas de vida. Mas foi também a minha primeira maior covardia, pois eu não fui para a rua, eu apenas desejei. 

E é aqui que a política tem realmente valor, pois ela condiciona as condições em que uma pessoa vai viver desde o berço até ao túmulo. Aquelas pessoas com pás e machados nas mãos tinham o sonho de ter um pedaço de terra onde pudessem viver, trabalhar e construir suas famílias e se o governo brasileiro tivesse implementado uma reforma agrária justa e honesta teria poupado sofrimentos, perdas e a marginalização de muitas pessoas. À semelhança do que acontece nos países do sul da Europa contemporânea onde milhares de pessoas tiveram que abandonar as suas casas por lhes ser negado o direito a tudo com as políticas de austeridade. Agora imaginem se tivesse sido diferente? Imaginem se os próprios políticos tivessem sonhado fazer diferente? Teriam optado pelas pessoas e não por seus números e a história teria agradecido aos grandes e não zombado dos pequenos que infelizmente nos governam. Pequenos porque se não podem imaginar medidas diferentes é porque não merecem a grandiosidade dos seus concidadãos, estes sim são grandes por sobreviverem em condições tão precárias onde não lhes é possível um sonhar minimamente decente. 

Todos nós almejamos existir com dignidade. A frase “o meu sonho…” é muito utilizada pelas crianças que não têm medo de pronunciá-la e em algum momento já foi utilizada por todos nós, incluindo aqueles que atualmente cassam os nossos desejos. Esta frase simples vem acompanhada de força e todos nós sabemos o quão importante ela é. Porém, infelizmente dizê-la ou sequer pensá-la tem se transformado num peso quase esmagador porque concebemos de antemão que os nossos sonhos morreram antes de sequer nascerem. Quem o diz é a Gabriela, de 18 anos, que queria ser advogada mas precisou procurar um trabalho porque a sua mãe perdeu o emprego. Ou o Miguel que aos 46 anos vende meias na porta do metro porque está desempregado há 4 anos. O Filipe de 2 anos, ainda nem sabe andar, que é sustentado pelo banco alimentar. Ou a Mara, que é atriz, mas que atualmente trabalha num call center porque não se pode viver da arte em Portugal. Ou o Tiago, de 5 anos, que foi adotado por duas mães, mas que verá ser reconhecido legalmente apenas uma delas. Ou o João, a Margarida, a Elisabete e até mesmo nós próprios, sendo que muitos de nós já deve ter, desistido nunca, mas se privado de sonhar.

E assim essa entidade invisível vai ditando o ritmo do que nós somos e vamos nos esquecendo daquilo que poderíamos ser. Por isso essa reflexão que aqui “escrevo alto” é destinada aos jovens políticos, principalmente àqueles que já estão adestrados pelas academias. Lá se pode aprender teorias, formatações retóricas, mas não nos vão ensinar que até a guerra se faz através de sonhos, pois os sonhos nada mais são do que quereres. Querer ser, querer fazer, querer ter, querer mudar, querer crescer. É impossível separar o ser humano dos seus sonhos. Então se a política é feita por humanos, ela deveria entender de sonhos e incentivá-los a se concretizarem, pois todas as maiores conquistas da humanidade, e também os maiores desastres, começaram com o sonho de alguém. Obviamente o sonho também pode assumir um papel perigoso, mas é aqui que entram as pessoas que sonham o oposto do sombrio, para estabelecer uma diferença entre invadir uma terra abandonada e ocupá-la. Se os nossos líderes não conseguem ver a política como defensora dos sonhos que só podem brotar das pessoas, é porque os políticos e a política abandonaram-se mutuamente, deixando um grande vazio na esfera da construção social. Podemos então pegar as nossas pás, machados, canetas, sementes, confetes, enfim, todas as ferramentas necessárias, e (re)começar a plantar nesse terreno ferido pela intolerância e falta de imaginação, fazer mudanças próprias do nosso tempo e fazer isso sem medo porque terra abandonada a gente não invade, a gente ocupa. 

Texto de Geiziely Fernandes

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