(Um novo) sindicalismo é preciso

O sindicalismo foi, ao longo de décadas, o principal garante da defesa e da luta por mais direitos dos trabalhadores. Devem-se às lutas sindicais grande parte das conquistas laborais nos séculos XIX e XX. Se é verdade que os primeiros sindicatos surgiram por necessidade de mais força na luta contra as entidades patronais, em muitos casos, a pertença a um determinado sindicato passou também a ser feita por uma questão de identificação e de orgulho pelo facto de se pertencer a algo maior, onde se reuniam pessoas com a mesma visão e com as mesmas reivindicações. Como na época em que surgiram, os sindicatos continuam não só a fazer sentido, como a ser necessários. Devem, no entanto, saber reinventar-se, adaptando-se às alterações que têm vindo a acontecer no mercado laboral, sob pena de perderem força e, por conseguinte, a própria necessidade de existirem.

A importância das forças sindicais no combate às desigualdades salariais entre o topo e a base dos assalariados é clara. O insuspeito FMI publicou há poucos meses um estudo onde mostra a correlação entre a redução da taxa de sindicalização e a parte dos rendimentos distribuída aos 10% que mais recebem. Esta correlação parece ser clara: à diminuição da taxa de sindicalização corresponde um aumento dos rendimentos daqueles que mais recebem. As desigualdades salariais parecem pois aumentar com a perda de força dos sindicatos, o que só vem reforçar a sua necessidade. Se parece ser clara a importância dos sindicatos, como se pode explicar a diminuição acentuada de trabalhadores sindicalizados em Portugal?

Sindicatos - FMI

Em Portugal, o sindicalismo está a passar por um período complicado. Em pouco mais de trinta anos, a taxa de sindicalização caiu mais de 40 pontos percentuais, fixando-se agora em menos de 20%. Recorrendo ao gráfico apresentado em cima, é fácil perceber que a esta percentagem de sindicalizados corresponde uma maior distribuição de rendimentos aos 10% mais ricos. Estes dados ajudam também a entender as razões que fazem de Portugal um dos países mais desiguais da União Europeia. Os responsáveis sindicais parecem estar cientes (de alguns) dos problemas que os sindicatos atravessam. Carlos Silva, presidente da UGT, reconhece que os sindicatos não estão a conseguir transmitir a mensagem que defendem e que o recurso à greve e às manifestações é visto por muita gente como um folclore.

A evolução do mercado laboral, consequência da concretização da globalização financeira e dos avanços do neoliberalismo, teve como uma das principais consequências a precarização do trabalho. Assim, à perda de postos de trabalho para países longínquos, onde o respeito pelos direitos sociais e ambientais são apenas uma miragem, associou-se uma precarização total dos novos postos de trabalho criados em Portugal. Estes novos trabalhadores precários não encontram qualquer tipo de representação nos sindicatos actuais, preocupados exclusivamente com os seus sindicalizados que, na sua maioria, têm mais estabilidade laboral. São pois de louvar iniciativas como os precários inflexíveis, que têm lutado na defesa dos direitos destes trabalhadores, que correspondem a uma boa parte dos novos recrutados e, sem dúvida, à maioria dos trabalhadores em início de carreira.

É essencial que os sindicatos alarguem o seu alcance. À importante luta pela manutenção e melhoria dos direitos dos actuais sindicalizados, é essencial que se associe a defesa dos trabalhadores precários, dos desempregados e até dos emigrados. Os sindicatos têm também que saber estar à altura do momento histórico que vivemos, sabendo adaptar-se às novas lutas e promovendo a solidariedade entre trabalhadores. Afinal, foi para isso que eles foram criados, para defender os trabalhadores e para que estes se sintam orgulhosos de pertencer a uma organização maior, na luta pelos seus direitos e pela justiça social.

PS: Sou, por várias razões já descritas neste blog, contra a privatização da TAP. Como tal, estou a favor de todas as acções que tenham como objectivo impedir a venda da companhia. A actual greve de dez dias, convocada pelo sindicato dos pilotos, não entra nessa categoria. Num momento crítico para a TAP, esta é uma greve egoísta e corporativista e que em nada ajuda à manutenção da TAP em mãos públicas. Quando o sindicalismo em Portugal continua a perder força, esta falta de solidariedade inter-sindical na TAP, onde alguns sindicatos lutam contra a privatização e outros apenas por mais regalias para os seus membros, é mais um prego no caixão do sindicalismo. Esta greve, bem como a vergonhosa declaração por parte de um dirigente do sindicato dos pilotos sobre os danos infligidos à TAP, mostra que os principais promotores da privatização podem estar dentro da própria companhia.

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