Isto muda tudo

Publicado originalmente em Setembro de 2014 e em português no final de Fevereiro deste ano – este livro é ambicioso no seu título: This changes everything (Tudo pode mudar, na tradução portuguesa). Isto muda tudo. Se o título não permite adivinhar a que corresponde o “isto” nem o que será mudado, o sub-título escolhido pela autora é clarificador: “Capitalismo vs Clima”. O conflito e a impossível relação entre o actual modelo de capitalismo, assente no livre-comércio e nas energias fósseis, e a sustentabilidade do nosso planeta, quantificada no aumento máximo da temperatura média do planeta em 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, é o elemento central do livro.

Num estilo que lhe é muito próprio, Naomi Klein apoia todas as suas afirmações de forma exaustiva, como que querendo mostrar que por mais aterrador que seja o descreve, tal corresponde apenas e só a factos concretos e comprováveis. Se esta fundamentação exaustiva pode, por vezes, resultar demasiado pesada à leitura do livro, nunca se torna impeditiva de uma leitura agradável e fluída. À semelhança dos seus livros anteriores – “A doutrina de choque” e “No logo” – também este tem a capacidade de nos assustar com a realidade. E o que está em jogo é o nosso próprio futuro colectivo.

Analisando o impacto das alterações climáticas, no presente e no futuro, Klein traça um cenário quase-apocalíptico, desde o aumento de fenómenos extremos como furacões e tufões até longos períodos de cheias e secas. O ponto em comum de todos estes fenómenos é o facto de as principais vítimas serem aqueles que menos contribuíram para as alterações climáticas, nomeadamente os habitantes dos países mais pobres. Nos países do Norte global os efeitos nefastos far-se-ão também sentir mas, como demonstrado, serão uma vez mais as populações mais pobres a sofrer as principais consequências.

Ao terminar o livro fica-se com uma sensação mista. Por um lado, parece que chegamos a um ponto de não-retorno, arrastados por um modelo de capitalismo selvagem e cego e que sobretudo desde os anos 80 tem levado tudo à sua frente. A manutenção de um modelo de livre-comércio extremo e sem barreiras, dependente da extracção de combustíveis fósseis em locais cada vez mais remotos e recorrendo a técnicas cada vez mais perigosas e inquinadoras, são tidos como responsáveis pelo aumento constante das emissões de gases de efeito de estufa nos últimos anos, excepção feita a 2009, no auge da actual crise financeira. Tudo isto sabendo-se há muito os efeitos que essas emissões têm no imediato e a longo prazo. A autora é também clara ao afirmar que as grandes organizações ambientalistas não são, em si mesmas, a garantia de uma defesa eficaz e coerente de um modelo de desenvolvimento diferente. Aliás, é dado um exemplo de uma das principais associações ambientalistas americana que, no seu próprio terreno, procede à extracção de combustíveis fósseis.

Por outro lado, o livro dá-nos também alguma esperança. Tendo percorrido o globo à procura de exemplos de blockadias (locais onde as populações se juntam para tentar evitar a concretização de algum projecto que lhes será nocivo), a autora fala-nos de algumas derrotas mas também de várias vitórias, de como grupos de cidadãos de todas as idades e de várias origens se juntaram e conseguiram dizer Não às grandes empresas multinacionais. Da Grécia à Nigéria, do Equador até ao Canadá natal de Klein, são vários e bem documentados estes casos, bem como o da ligação em rede destas lutas. Lendo o livro mais de um ano após a sua saída, podemos também saber o que aconteceu em alguns destes locais: Balcombe, localidade britânica que resistiu à exploração de gás de xisto no seu solo, preferindo avançar para um modelo cooperativo de energias renováveis, viu-se obrigado a desistir do seu projecto, devido às alterações legislativas levadas a cabo pelo governo conservador de David Cameron; nos Estados Unidos, aquele que é provavelmente o projecto mais citado no livro, o oleoduto “Keystone XL” que deveria importar petróleo extraído de forma altamente poluente das areias betuminosas canadianas, foi rejeitado por Barack Obama, após enorme mobilização, com especial destaque para as comunidades indígenas, dos dois lados da fronteira.

Este livro é também um apelo à esquerda. Historicamente, a relação da esquerda com a ecologia nem sempre foi pacífica. Com o seu olhar meticuloso, Naomi Klein apela às forças de esquerda de todo o mundo a que façam da defesa da ecologia uma das suas principais bandeiras e que a usem como ferramenta para atingir outros objectivos políticos, com especial incidência na melhor redistribuição de recursos. A um problema desta escala, a resposta deve assentar em soluções radicais e a autora aponta alguns caminhos: transição energética para as energias renováveis e descentralizadas, financiado por um New Deal à escala global.

Mais do que um simples livro, este é também um guia para a esquerda ecologista. Quando os resultados da cimeira COP21 ficaram aquém do necessário e na ausência de um compromisso global vinculativo para limitar as emissões de gases de efeito de estufa, é impossível ficar indiferente ao seu conteúdo. Este livro muda efectivamente tudo. Com toda a informação que nos dá, poderemos continuar a virar a cara à realidade?

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