Islão, essa coisa do outro mundo

Viver num país maioritariamente católico e com uma população de interações pouco expressivas com comunidades islâmicas proporcionou-me ao longo dos anos algumas experiências pessoais do desconhecimento semi-generalizado dos portugueses em relação às especificidades da religião praticada por muçulmanos. Mas também é verdade que estão longe de ser mal intencionados e quando me perguntam que religião pratico depois de saberem que sou natural de um país falante de língua árabe, sei que morrem de curiosidade pela minha cultura e a dos meus pais (seria errado partir do princípio de que todos os árabes são muçulmanos).

Mas já não consigo demonstrar a mesma simpatia por pessoas que são convidadas a comentar notícias da atualidade em programas de informação e deveriam ter o bom-senso de não se aventurarem em terrenos difíceis. Porque só se enterram e enterram e enterram e cabe-nos a nós a infelicidade de ter que testemunhar esses momentos embaraçosos. Já nem falo na responsabilidade que cabe à comunicação social que, com demasiada frequência, nos insiste em brindar com comentadores espectacularmente ignorantes. O Islão não é assim tão difícil de entender para quem queira ter a disponibilidade de passar algumas horas a ler sobre o assunto e ganhar noções básicas sobre as suas origens e os vários grupos que o compõem.

Se este post é motivado pela má prestação da Marisa Moura sobre o Islão —  O terceiro califa era o Ali (não, era o quarto) que é aquele senhor dos palácios das histórias dos príncipes das Arábias e da riqueza…errr… absurda, ele andava a combater… errr… (ao que o jornalista Paulo Nogueira mete a piada “era o Citibank da altura”); Maomé era um comerciante que se indignou, como nós hoje nos indignamos, com os agiotas que são pessoas, enfim — é também motivado por um desejo de afirmar que, quando abrimos as portas para o Islão, descobrimos uma das histórias mais complexas e fascinantes do mundo civilizado. É recheada de glórias e tragédias, de sucessos e fracassos, de infâmias mas também um desejo desesperado da parte de muçulmanos de atingir a unidade com Deus e paz.

O surgimento recente do Estado Islâmico (um nome enganador em muitos aspetos) é um assunto complexo ligado inevitavelmente às guerras do Iraque e Síria, e é preciso compreender essas guerras para compreender o EI. E antes das guerras da Síria e Iraque, teríamos que falar de eventos como o 11 de setembro, as origens da Al-Qaeda, o Wahhabismo e a Irmandade Muçulmana, a Guerra Fria e a influência da Ex-União Soviética na região, o papel do Irão, assim como, a interferência americana (muitas vezes desastrosa). Mas antes de tudo isso, e de forma a compreendermos as divisões que se operaram no seio do Islão, teríamos que voltar ao início, à noite em que tudo começou, a noite em que o espírito do Profeta Maomé foi sacudido pela brutal força das primeiras Revelações no ano de 610 d. C., libertando assim a extraordinária eloquência que daria origem ao Corão. Esta é a história de como um homem, escolhido como líder e Profeta, unificou as tribos da Península Arábica e lançou as sementes do que se tornaria uma comunidade (ummah) unida em torno de um ideal de devoção e submissão a Deus, de um ethos de tolerância religiosa e igualdade entre homens e mulheres (sim!), de rectidão e paz.

Mas, como muitas das histórias nos ensinam, os ideais corrompem-se facilmente quando enfrentam a ambição pelo poder que é uma fraqueza tão absolutamente humana. A visão de Maomé começou rapidamente a colapsar após a sua morte devido à incapacidade de muitas das tribos de Meca e de Medina em se reconciliarem verdadeiramente. A disputa pela sucessão do Profeta levou a graves incidentes (o assassinato do terceiro e quarto califa e ainda o massacre em Karbala do neto do profeta e a sua família, Hussein ibn Ali) que causaram a grande cisão entre sunitas e xiitas. E os sunitas e xiitas fracturaram-se em ainda mais movimentos esotéricos (há tantas ramificações e escolas de pensamento islâmico) nas décadas subsequentes e que para sempre alteraram a prática e interpretação do Islão.

As guerras que se travam presentemente no Iraque e Síria são ainda um reflexo dessas disputas iniciais. É em parte uma guerra ideológica. Muitos dos combatentes e rebeldes lutam para proteger e controlar locais sagrados de peregrinação na região, mas seria errado fazer uma análise exclusivamente religiosa. A religião nada tem a ver com o preço dos barris de petróleo e com o facto de alguns países andarem a comprar nas barbas de toda a gente petróleo ilegal ao Estado Islâmico por tuta e meia, em vez de comprarem aos americanos.

Por isso, por muito que haja vontade em elaborar um Islão para dummies, diria que isso nunca bastaria.  O Islão afetou e moldou o destino dos povos árabes, turcos, persas e as tribos da Ásia Central e deu o arranque a uma grandiosa odisseia multiétnica desde o ano da Hégira (622 d. C.). Compreender o Islão é ver para além de preconceitos e imergir na história e cultura de pessoas que parecem pertencer a um outro mundo, mas é o mesmo mundo em que o Ocidente vive. Há coisas a recear, mas há muitas mais para respeitar e admirar. E certamente o Islão merece ser tratado com mais rigor e conhecimento por comentadores que nada sabem e nada têm a acrescentar. Afinal, não é assim tão difícil de compreender.

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4 thoughts on “Islão, essa coisa do outro mundo

  1. Sou Católica Apostólica Romana e devo dizer que o Islão – ou o pouco que tenho conseguido aprender e descobrir no meio de “esclarecimentos” tóxicos e mal intencionados – é uma Religião Apaixonante.
    Em tom de consolação deixe-me dizer-lhe que há praticantes dentro da mesma religião que também não sabem nada de nada e nem querem saber. Basta ver durante a Semana Santa as entrevistas a católicos no meio da procissão que não fazem ideia do que significa Ecce Homo.
    Perde a cultura e perde uma humanidade que bem informada se deixaria de caças a bruxas e demónios… (aos errados e indescrimandamente, quanto mais não fosse)
    Feliz Ano Novo!

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  2. Fico muito contente por ver aqui este artigo que nos motiva a conhecermos melhor o outro, que é o meu vizinho e a minha vizinha. Já tive medo e preconceito. E já sei que o Islão político é bem diferente do Islão religioso e filosófico. Quero descobrir mais e sobretudo recusar a histeria que está a transformar os muçulmanos no novo bode expiatório, como já o foram os judeus.

    http://www.editionsladecouverte.fr/catalogue/index-Pour_les_musulmans-9782707183538.html

    Edwy Plenel (Mediapart) “Pour les Musulmans” 2014
    Emile Zola “Pour les Juifs” 1896

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  3. “J’écrivais ici il y a trois jours que si nous voulons éviter une pareille catastrophe, il nous reste à nous les blancs, laïcs mais aussi révoltés par le racisme et les injustices sociales, à faire savoir que nous sommes là et que nous ne cèderons pas à cette folie qui nous emporte. J’écrivais qu’il nous faut résister et dire que nous n’avons pas peur de l’autre. Car nous lui ressemblons”

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