Sinais de mudança

A noite de ontem assistiu a eleições em Espanha e em França. No país vizinho houve eleições antecipadas para o Parlamento da Andaluzia, enquanto em França teve lugar a primeira volta das eleições departamentais. Tanto num caso como no outro havia previsões manifestamente exageradas quanto ao fim do bipartidarismo em Espanha e quanto ao domínio da Frente Nacional em França. Pese embora os cenários mais extremos não se tenham verificado, houve avanços nesse sentido: na Andaluzia, nunca se haviam registado tantos lugares no Parlamento atribuídos a partidos que não o PP e o PSOE e em França, a extrema-direita consegue o seu melhor resultado de sempre em eleições locais e mantém a percentagem de votos conseguida nas eleições europeias de 2014. Não sendo resultados que provem uma alteração do paradigma nos dois países, são sinais que não podemos ignorar.

Os resultados das eleições para o parlamento andaluz nunca poderão ser extrapolados para o nível nacional. A Andaluzia é, desde o início do período democrático espanhol, um bastião do PSOE, sendo que a região nunca conheceu um governo de outro partido. Uma das razões pelas quais Susana Díaz dissolveu o anterior governo regional (coligação PSOE-IU) foi certamente a ascensão dos novos partidos e o perigo que tal poderia representar para o PSOE. Tendo conseguido manter o número de deputados regionais que tinha na anterior legislatura, o PSOE acaba por sair relativamente bem desta eleição. Mais do que a enorme queda do PP, que passa de 50 para 33 deputados, é importante notar a entrada de dois novos partidos no parlamento – o Podemos (que rouba o 3º lugar à IU) e o Ciudadanos que, de não aparecer sequer em sondagens, passa a 4º partido mais votado, conseguindo 9 deputados.

Em França, as eleições departamentais são, por norma, bastante complicadas para o partido no poder. O PSF, apesar de ter sido apenas o terceiro partido mais votado, acaba por conseguir aguentar este primeiro choque. A maré do século verificou-se apenas na sexta-feira, sendo que a maré “blue Marine” não alcançou os resultados que muitas sondagens lhe davam. No entanto, a Frente Nacional alcança o mesmo resultado que nas eleições europeias (+/- 25%) confirmando assim a sua implementação a nível local. O centro-direita, de novo com Sarkozy ao leme, é o vencedor da noite, tendo conseguido cerca de 30% dos votos. Estas três formações têm assim algumas razões para sorrir (ou pelo menos para não chorar). O Libé apresentou duas capas onde, na primeira, apresenta as diferentes razões para festejar e, na segunda, acrescenta o título “As três Franças”. Tão preocupante quanto a subida da extrema-direita, é aquilo que parece ser o fim do acordo republicano, com Sarkozy a dizer que não apelará ao voto nem na FN nem nos partidos de esquerda.

Não se deu (ainda) o fim do bipartidarismo em Espanha, nem a extrema-direita domina a França. No entanto, os sinais começam a ser dados e importa atentar nos mesmos. Há vontade de mudar e as próximas eleições pelo poder a nível nacional – no final do ano em Espanha e em 2017 em França – podem ser a prova definitiva dessa vontade de mudança. Se em Espanha os valores da democracia parecem estar preservados, uma eventual vitória da extrema-direita em França poderia ter efeitos nefastos sobre o país e sobre a Europa. É importante não ignorar estes sinais.

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