Do medo à esperança

As notícias que foram chegando a Portugal nas últimas semanas davam como praticamente certa a vitória do candidato da extrema-direita na segunda volta das eleições austríacas. Após um resultado acima do esperado na primeira volta, Norbert Hofer parecia ter a eleição garantida. Isto tendo em conta a análise dos principais órgãos de comunicação social – portugueses e europeus – que nem sempre se deram ao trabalho de fazer uma investigação jornalística com o nível de detalhe suficiente. O facto de um candidato de extrema-direita ter um resultado elevado é, e deve ser sempre, razão para notícia mas é preciso saber destrinçar os factos à luz da história eleitoral do país em causa e saber fazer uma avaliação crítica dos mesmos. Enquanto o foco esteve virado para Hofer, pouca atenção foi dada ao seu rival, o ecologista Van der Bellen, que, contados os votos, acabou por se tornar no novo presidente do país. À semelhança de Portugal, o presidente da República austríaca não tem poder executivos. Ainda assim, sendo o chefe de Estado, as suas ideias e o seu poder – real ou simbólico – têm uma grande importância.

Após anos de uma gestão deficiente da crise económica a nível europeu e de uma vergonhosa actuação perante a crise de refugiados, a extrema-direita tem conseguido crescer em vários pontos do continente. Ainda ontem, nas eleições ao parlamento cipriota, o partido neo-nazi ELAM conseguiu, pela primeira vez na história do país, ter representantes eleitos. O medo do regresso a um passado obscuro e não muito distante na história europeia, alimentado por uma comunicação social preguiçosa e alimentadora de informação incorrecta, parece pois estar a tomar conta de muitos cidadãos europeus. Por outro lado, há também uma esperança que, embora quase sem cobertura mediática, vai fazendo o seu caminho e o caso austríaco é paradigmático.

Filho de refugiados, cosmopolita e com uma visão ecologista, Van der Bellen representa bem todos aqueles que não nos conformamos com um regresso às soberanias nacionais e a um continente com as fronteiras encerradas. A defesa de um comunitarismo soberanista – infelizmente tão cara a uma certa esquerda europeia – tem nas ideias do novo presidente austríaco uma alternativa radicalmente diferente. Após o primeiro chefe de executivo da Esquerda Europeia, temos agora o primeiro chefe de Estado ecologista e progressista. Aqueles que achavam que a União Europeia estava condenada a cair sobre o peso da sua burocracia e do seu conservadorismo ou a ceder lugar à extrema-direita e ao Estado-nação como soberano exclusivo, terão que repensar a sua avaliação. Aqueles que defendem o centrão, onde dificilmente se distingue um partido social-democrata de um partido conservador, como solução para todos os males também se verão obrigados à mesma análise. Com poucos votos de diferença, a vitória de Van der Bellen transformou o que seria uma vitória do medo numa vitória da esperança. Que outros lhe saibam seguir o caminho.

 

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